Artigo

Chiarelli fala com estranhos

17 de Junho de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Rosa, Piratini

prosasousa@gmail.com

Chiarelli, no caso, é Stefania, a escritora. Ela não só fala, recomenda aos demais falar com estranhos. Mostra-se falante às gentes não-daqui em seu livro de 2016, Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira, 7 Letras, Rio, em parceria com Godofredo de Oliveira Neto na organização dos textos.

É um livro sobre a dor. A dor da ambivalência de quem se aventura a ir para terras que não a sua, a renascer em outro lugar, em outro idioma, junto a outras caras, outros gestos. Qualquer vida é sucessão de partos, o que significa dores e eventuais alegrias, mas a vida de estranhos de um outro lugar costuma ser parto distócico que, na linguagem obstétrica, significa difícil, laborioso.

Uma primeira paixão de Stefania foi Italo Calvino. Ela contaminou-me com seu amor e, sobre esse escritor apaixonante, publicamos juntos, no século passado, um ensaio sobre O cavaleiro inexistente, na Revista Brasileira de Psicanálise, 1999. Exploramos ali os aspectos alegóricos e as fragilidades do eu, duramente expressas por Calvino e tão úteis para o nosso viver.

Mas Chiarelli tem também outras paixões. Anda às voltas com o judeu asquenaze Samuel Rawet, que imigrou para o Rio em 1936 e mostrou, em produção copiosa, o que é viver em terra alheia, mantendo a cabeça a pensar. Nada fácil. Engenheiro de profissão, recluso de hábitos, colaborou na construção de Brasília e, sempre rápido e inquieto, morreu aos 55 anos, de aneurisma cerebral.

Rawet estranha/sofre/fala os ruídos das cidades onde circula e Chiarelli vê nesses elementos auditivos os fundamentos para a construção das novas subjetividades do imigrante. Rawet e Chiarelli privilegiam o ouvido _ por menos discriminatório _ ao olhar. Posição esta bastante freudiana, pois acentua o aprender a ouvir acima de tudo. Esse é o ponto de partida. É de onde parte o imigrante, de onde parte o analista, cujos ouvidos estarão bons quando experimentados à maneira imigrante, quando se é todo-ouvidos. Sugestão válida para quem trabalha em hospício e busca afinar a escuta para sofrimentos extraordinários. Uma escola do viver.

Chiarelli belamente fala das "paisagens sonoras" do Rio, elaboradas por Rawet, destacando que ele se vê aprendendo nossa língua "na rua, apanhando e falando errado - acho até que este é o melhor método pedagógico em todos os sentidos. Aprendi tudo na rua". Stefania atenua essa afirmação ao falar da sólida cultura erudita de seu autor, mas, rawetianamente, essa elaboração cultural se faz a partir do aprendido na rua com ânsia e curiosidade do imigrante e seus ouvidos sequiosos de ouvir. Escutava sem medo aos excluídos como ele e falava sem peias dos sofridos: " ...São Paulo, Belo Horizonte, Rio... há sempre um beco noturno... há sempre uma prostituta e um pederasta, um homem e uma mulher, há sempre o intervalo entre dois amores, há sempre alguma derrota em alguma vitória".

Chiarelli fala com estranhos, e apreende humanos sofrimentos.


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