Editorial

Chegamos ao limite

03 de Março de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Desde o começo da pandemia, o Rio Grande do Sul mais do que dobrou a sua oferta de leitos de UTI na rede pública. Em março do ano passado, o Estado contava com 933 leitos capazes de atender pacientes com quadro grave de qualquer doença. Chegado o coronavírus, o SUS tem hoje 2.121 vagas para tratamento intensivo. Ou seja, uma expansão de 127% na capacidade que, somada aos hospitais privados, resulta em 2.808 unidades.

Para dar conta de tudo isso, novas equipes tiveram que ser formadas. Mais enfermeiros, técnicos, médicos intensivistas e tantos outros profissionais fundamentais para fazer essa estrutura funcionar. Mesmo assim, com tantas contratações, o que se vê diariamente são desabafos de quem está dentro dos hospitais. A cada oportunidade de ouvir integrantes de equipes de saúde, em geral o relato começa com um suspiro e segue em tom de esgotamento.

Porém, tal cenário gravíssimo enfrentado incansavelmente por profissionais da linha de frente e reportado insistentemente pela imprensa - aqui no Diário Popular todos os dias - não tem sido suficiente. A desconsideração pelo trabalho hercúleo de quem veste branco e se expõe ao vírus tentando salvar contaminados pela Covid-19 é gigante. Um absoluto desrespeito pela vida. Exemplo disso é o flagrante publicado ontem em reportagem do DP em que, mesmo com bandeira preta e comércio fechado, muita gente insistiu em ir ao centro de Pelotas. Vários apenas para sentar em grupos e conversar como se não estivéssemos no pior momento da crise sanitária.

Por isso - e também por insucesso ou incompetência em diversos níveis no enfrentamento à pandemia - rompemos ontem no Estado o limite de ocupação de UTIs, levando em conta os leitos das redes pública e privada. Às 14h07min, o monitor de vagas apontava que havia 2.812 internados. Ou seja, 100,1% de ocupação, com pessoas recebendo atendimento improvisado à espera de uma vaga de tratamento intensivo.

Aos mais insensíveis à coletividade e que buscam argumentos que orientem justificativas voltadas ao próprio umbigo, vale a lembrança: também Pelotas, uma das referências regionais em acolhimento de pacientes com Covid-19, tem batido 100% de ocupação de UTIs nos últimos dias. A ponto da prefeitura anunciar nova ampliação de leitos a partir de amanhã, chegando a 50, dez vezes o que havia há um ano.

Ampliar a estrutura de atendimento infectados por coronavírus é fundamental. Mas há limites. As aglomerações nas ruas estão se refletindo em aglomerações nos hospitais. E, em algumas cidades, até nos necrotérios. A irresponsabilidade coletiva já passou do limite há horas.


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