Artigo

Charlie Parker: centenário de um jazzista

16 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, compositor e escritor

Considerado por alguns críticos o maior saxofonista de todos os tempos, Charlie Parker, nascido em 1920 nos EUA, completou neste ano o centenário de sua existência, qual figura entre as mais influentes e significativas dentro do universo musical voltado ao jazz. Como tal gênero, porém, influenciou igualmente diversas outras vertentes musicais, Parker, também conhecido pelo célebre apelido Bird, espalhou sua influência para além das fronteiras jazzísticas. Espírito investigador e irrequieto, procurou fundir o jazz com outros estilos musicais, como, por exemplo, a música de concerto (tendo estudado, inclusive, como compositor Edgard Varèse), ou ainda a música latina e a música cigana, além de haver tocado com grandes nomes, tais como Miles Davis, John Coltrane, Oscar Peterson, entre outros.

Virtuose em seu instrumento, Parker destacou-se tanto pela sua complexa relação com o ritmo e a harmonia, conseguindo ir além das usuais variações de temas internas ao improviso, quanto pela criação, junto do trompetista Dizzy Gillespie, de uma corrente extremamente importante dentro do jazz, chamada Be Bop, a qual mesclou o virtuosismo instrumental com uma nova relação rítmica baseada em síncopas e figuras rítmicas complexas, levando à melodias de fraseados agitados e velozes, ricos em saltos e cromatismos. Com isso o jazz, definitivamente, passou a ser um gênero musical apreciado pelo seu caráter instrumental e virtuosístico elevado, e não apenas pela sua relação com adança e o canto.

Dentro do Be bop, uma de suas mais célebres interpretações foi aquela relativa ao tema intitulado Donna Lee, originalmente gravado pelo Charlie Parker Quintet em 8 de maio de 1947. Tanto que muitos acharam, a partir daí, que o tema havia sido composto por ele próprio, embora fosse uma composição de Miles Davis. Desde então o tema foi amplamente divulgado e interpretado por inúmeros artistas, dentre eles pelo inigualável baixista Jaco Pastorius, com quem Donna Lee ganhou ainda mais projeção, na medida em que Pastorius, em sua versão, conseguiu aliar à virtuosidade exigida pelo tema várias técnicas e recursos, em geral inovadores no que diz respeito às possibilidades habituais do contrabaixo elétrico. Através de tais recursos, Jaco Pastorius procurou expandir no contrabaixo aquilo que Parker, em parte, havia ousado no saxofone: assim temos um exemplo de que, para além de sua influência sobre os saxofonistas, ele veio também a influenciar ideias e práticas de muitos outros instrumentistas.

Apesar de tantos feitos ao longo de sua vida, com a interpretação, composição e gravação de inúmeras músicas, esta foi, infelizmente, demasiado curta: Charlie Parker veio a falecer com apenas trinta e quatro anos, vitimado por um ataque cardíaco enquanto assistia, em sua televisão, a uma apresentação de jazz. Através de sua curta e intensa vida, legou ainda aos músicos a interessante lição: "a música é a sua própria experiência, seu pensamento, sua sabedoria. Se você não a viver, ela jamais vai sair do seu instrumento".


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados