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Carta aberta aos candidatos à reitoria da UFPel

22 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Antônio César Borges, ex-reitor da UFPel

Prezados professores:

As publicações no Diário Popular de 20 de agosto sobre o Ranking Internacional das Universidades e a oficialização das eleições para a reitoria da UFPel, que terão início na quarta-feira, 23 de setembro, estimularam a redação desta Carta Aberta aos candidatos.

Naquela edição do Diário, foram notáveis não apenas a elevada qualificação dos ilustres professores como também o ingresso relativamente recente de alguns dos concorrentes no quadro docente de nossa Universidade. Por isso, na qualidade de velho professor e ex-reitor, tomei a liberdade de aqui citar alguns fatos antigos que possam ser úteis para as ações do futuro gestor.

A UFPel foi fundada em 1969 graças a coragem e a persistência do reitor fundador Delfim Mendes Silveira e ao apoio decisivo de Edmar Fetter e de lideranças locais. A partir de então, o trabalho dedicado de professores e servidores técnico-administrativos, o aprimoramento de conhecimentos, a melhoria na infraestrutura e as pesquisas de alta qualidade, com destaque, neste momento, para a contribuição da epidemiologia sobre o comportamento do coronavírus em nosso país, e outros fatos ocorridos durante 50 anos de sua existência, propiciaram à UFPel o título de “segunda melhor universidade do Rio Grande do Sul” como revelou a página do editor-chefe do Jornal.

É verdadeira a afirmação de que a Universidade pode andar por si mesma. Porém, depende do gestor imprimir maior ou menor velocidade às atividades da Instituição, dotada de liberdade e de criatividade no desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da extensão. Certamente foi essa a concepção do reitor fundador ao reunir as faculdades de Agronomia, de Direito, de Odontologia e o Conservatório de Música quando inaugurou o gabinete da reitoria no campus do Capão do Leão. Ao longo dos anos a instituição cresceu com a incorporação das Faculdades de Medicina e Enfermagem em Pelotas e outros cursos em vários prédios alugados.

Em 2007, graças ao Programa Reuni a UFPel, triplicou o número de alunos (mais 20 mil); foram criados 50 novos cursos com ênfase nas áreas de tecnologias, engenharias, artes, design e relações internacionais, promoveu-se o acréscimo de mais de 700 mestres e doutores no quadro docente e criou-se o Programa Cobalto, permitindo nítido avanço no registro e na transparência das atividades da instituição. A partir de 2012 aumentou o número de servidores técnicos, reduzindo de modo marcante a necessidade da participação das fundações de apoio, até então imprescindíveis para as atividades próprias da Universidade.

No mesmo período, o patrimônio da Universidade foi enriquecido com a construção do novo campus Porto, com a transferência da reitoria para Pelotas, com a antiga Cotada que abrigou o Centro das Engenharias, com o Centro de Artes, com o Museu do Doce, com o LyceuRio-Grandense e com o Centro de Integração do Mercosul. Todas as faculdades e os institutos tiveram suas salas de aula e laboratórios reformados e adequadamente equipados e outros imóveis foram adquiridos para aproveitamento no futuro.

Prezados candidatos:

Historicamente ao final de cada mandato alguns projetos permanecem inacabados, os quais devem ser concluídos pelos novos gestores. Assim ocorreu com a Biblioteca das Ciências Humanas inaugurada pelo ex-reitor Mauro del Pino, enquanto que a retomada da restauração do Grande Hotel e a construção do Restaurante Universitário ocorreram na atual gestão do reitor Pedro Curi Hallal.

Portanto, à agenda de propostas inovadoras do reitor eleito poderão ser acrescidas obras inacabadas, iniciadas ainda em minha última gestão, tais como da Biblioteca Central no campus do Capão do Leão, da Laneira, do Mercosul Multicultural e do Hospital Escola. Sem esquecer ainda a recuperação do Núcleo de Estudos Fronteiriços, parte importante da história da internacionalização da nossa universidade e de grande valor para a participação efetiva da UFPel no campo das relações internacionais.

Nos dias atuais o mundo passou a viver outra realidade motivada pelos efeitos da Covid- 19. Nesse contexto as faculdades ligadas à saúde necessariamente deverão merecer especial atenção com destaque para as obras do Hospital Escola.

Por isso faz-se necessário rememorar a história desse grande empreendimento, que não foi completamente vivenciada pelos candidatos e que poderá ser útil para evitar repetição de erros do passado e produzir bons resultados no futuro.

Em 1970 o Dr. Naum Keiserman, diretor fundador da Faculdade de Medicina idealizou o projeto arquitetônico do Hospital. Quinze anos mais tarde na qualidade de diretor da Faculdade obtive a doação do terreno para sua construção. À época a ausência de apoio da Reitoria resultou na devolução do terreno ao governo federal. Somente mais tarde, em 1993 a área foi readquirida e iniciada a construção do Pronto Atendimento 24h como primeiro módulo do Hospital Escola. Em1997 a obra foi interrompida, pois a administração da reitora Inguelore Scheunemann pretendeu instalar o Hospital Escola na Casa de Saúde Santa Tereza. Mas aquela proposta não logrou êxito devido a impedimentos legais para a construção de grandes edifícios no centro de Pelotas. Então, em 2005 foi reiniciada a luta para edificação do Hospital Escola com 370 leitos no terreno original, nos fundos da Faculdade de Medicina no Fragata.

Então, em 2012 o MEC autorizou a liberação gradativa de R$ 122 milhões para a construção do Hospital, mas a empresa vencedora da licitação apenas instalou o canteiro de obras. Na gestão seguinte outra construtora foi contratada, mas somente no decorrer deste ano a primeira parte do Hospital Escola (Bloco 3), destinada à Oncologia parece estar pronta para inauguração. Portanto, caberá ao reitor eleito (gestão 2021-2024) recuperar os recursos perdidos e concluir a construção do grande complexo hospitalar, essencial para a saúde pública de Pelotas e região sul.

Caros candidatos:

Atualmente vivemos tempos sombrios e incertos para as universidades federais, as quais, até hoje, não têm autonomia plena. O pleito que se aproxima certamente será distinto de todos os anteriores. Não haverá o calor dos inflamados discursos, acompanhados de aplausos e de vaias, nem os comitês repletos de gente. Os cartazes com propostas serão substituídos pela criatividade fria das redes sociais. Entretanto, nada disso anula a importância do resultado das urnas e o respeito à democracia, que todos nós sempre nos orgulhamos.

Para traspor os obstáculos que surgem na jornada administrativa e conseguir transformar sonhos em realidade, será preciso não apenas talento e coragem para suportar, as dificuldades e por vezes as injustas incompreensões, mas sobretudo será necessário vencer burocracias, afastar-se dos ranços ideológicos comuns nas corporações e transitar com habilidade em territórios tão diversos e plurais da universidade, reflexo vivo da sociedade em que vivemos.

Senhores candidatos das chapas concorrentes:

Parabéns pelos esforços e pelo desprendimento em prol da Academia e recebam os votos de feliz campanha eleitoral com os melhores resultados para a UFPel que todos nós ajudamos a criar.


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