Análise

Cansado da Copa

25 de Junho de 2014 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Jarbas Tomaschewski

- Querido, onde vamos ver Nigéria e Argentina hoje?

- Em nenhum lugar.

- Nenhum?

- Amor, não aguento mais assistir ao futebol. Até ontem foram 40 partidas. Tô com saudade de algo mais romântico, só nós dois.

- Romantismo? Isso é coisa para as mulheres. Afinal, os homens não adoram futebol?

- É, a gente gosta, mas tá demais. Perdeu a graça. Já são 13 dias vendo um jogo atrás do outro. Enjoei. Prefiro um jantar à luz de velas, vinho, boa conversa...

- Nem vem. Romantismo, agora, só depois da Copa.
Ele saiu de casa triste, decepcionado com aquela rotina chata. A companheira vivia na frente da TV, vestida de verde-e-amarelo, 24 horas conectada à internet, sem perder nada do Mundial. Compartilhava tudo. Caminhou algumas quadras e entrou em um café, onde as pessoas também só falavam sobre futebol. Na mesa, solitário, foi abordado por uma desconhecida.

- Oi, posso sentar?
Disse sim. Era uma mulher bonita, da sua idade, que foi logo puxando conversa.

- Eu não costumo fazer isso, mas era a única cadeira vaga.

- Tudo bem.

- Tô fugindo da Copa. O mundo parece que só respira isso. Estou com saudade de outros tipos de conversas, mais interessantes.

Ele despertou com as palavras daquela estranha. Seus olhos brilharam e os dois imediatamente passaram a dialogar sobre tudo, menos o esporte bretão. A crise na Croácia, o papa Francisco, o Facebook, as eleições de outubro, o piso do magistério, filmes, livros e Games of Thrones, o estacionamento rotativo, as tatuagens que ainda fariam. Foram os últimos a deixar o café, já de noite, e não pararam de conversar. Terminaram na casa dela, mais precisamente na cama, onde deram início a um relacionamento sério e passaram a viver juntos, apaixonadíssismos. Apagaram de suas memórias todo o passado de algumas horas atrás e curtiram cada segundo nas semanas seguintes.

No dia 13 de julho, quando a última partida da Copa seria realizada, um “alarme” despertou dentro de sua cabeça. Mesmo sem se preocupar com a decisão, teve uma espécie de estalo durante o café da manhã.

- Meus Deus, eu sou casado.

- O quê?

- Agora lembro de tudo. Eu sou casado. Saí de casa porque não suportava mais ver os jogos da Copa. Caminhei até aquele café, onde nos encontramos. E quando passamos a conversar foi como se no mundo nada mais importasse. E agora, o que eu faço?

Ela já estava acostumada com ele, mesmo em um espaço de tempo tão curto. E havia se apaixonado, de verdade. Não queria devolvê-lo à esposa.

- Amor, você é feliz comigo?

- Claro, eu te amo, principalmente porque você detesta futebol.

- Então fica comigo.

Telefonou para casa - sua primeira casa - e falou com a companheira - sua primeira companheira.

- Amor, você desapareceu. Onde está? Fiquei preocupada. Quero ver a final da Copa contigo. Volta pra casa. Vamos torcer pela...

Desligou o telefonou e virou-se para a amada.

- Sim, vou ficar contigo.

 


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