Opinião

Câncer poético, o oximoro

03 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa, Piratini, terceiro distrito
prosasousa@gmail.com

Nada de poesia poderá existir num câncer, dirá o amigo. Para alguns, só o som da palavra já é assustador, portanto, nunca o nomeiam, utilizando-se de eufemismos, pois lhes fazem parecer menos traumático aos ouvidos. Assim, chamam de 'doença ruim', 'doença aquela', 'essa doença', e assemelhados. Em algo se parecem aos amigos que nunca falam 'diabo', referindo-se ao demônio como 'o coisa ruim', 'o insepulto', etc. Veementemente discordo.


Com meu câncer desalojado de sua 'propriedade' ontem, retornei ao nosso Drummond, lembrando de seu poema 'Corpo', onde ele ensina, com a sabedoria discreta e pungente de sempre, que 'meu corpo não é meu corpo'. Ou seja, ainda que habites em teu corpo, não és propriamente o dono, e, menos ainda, o administrador dessas corporeidades. Modestamente, e para facilitar as coisas dizemos, sem maiores preocupações, 'meu corpo', sabendo, segue o itabirano, que ele, corpo, sabe de ti, mais do que tu sabes dele. Se não, como explicarias que esse corpo que te leva, de repente, comece a louquear, fabricando células sem teu controle? Talvez prefiras dizer que és tu quem leva teu corpo _ e não o contrário _ mas, igual, há que tomar consciência do não domínio sobre a própria massa.

Mas, já que temos (talvez, tínhamos) a presença do câncer, sigamos, pois com Drummond. No Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, Ed. Globo, 2007, estão as palavras do saudoso Paulo Francis: 'O maior poeta do pós-guerra. Fui editor de Drummond no segundo caderno do Correio da Manhã. Quer dizer, mandava descer à oficina suas crônicas...são um prodígio de criatividade. 'Lição de coisas', de 1962, contém seu verso mais experimental. Ele tinha 60 anos...Não há caso igual na história da literatura, a não ser entre os gregos, Sófocles, mas pertence a um mundo que não podemos sequer imaginar, de individualidade livre e grandiosa. Drummond emergiu como uma fênix da nossa atomização em sociedade de massa...o grande poeta foi prenunciado em Brejo das Almas, 1934, cético, desacreditando de tudo, o que inclui nossa identidade nacional...'o mundo não acabou, pois que, entre as ruínas, outros homens surgem...cada palavra parece arrancada, recém-nascida de uma rocha inesgotável, e o poeta se volta para si próprio, como entidade metafísica...se português não fosse língua marginal, Drummond teria dominado a cena mundial pós-1950'.


Na quinta feira, 6/8/1987, final da tarde, Drummond visitava o cemitério do bairro de Botafogo, Rio, quando se materializou aos seus olhos o poema 'José': '(...) a noite esfriou,/ o dia não veio,/ o bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou,/ e agora, José?...Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, para onde?'

Os oximoros têm sobre si o olhar de poetas, Drummond ensina sobre corpo e câncer.

 


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