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Bolsonaro e os demônios

31 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: William Waack

Os fatos que atrapalham o presidente não são excepcionais, não fossem os demônios.

Jair Bolsonaro sente-se e age como homem cercado. Em parte, os motivos para essa autopercepção são práticos e "palpáveis". Em parte, sente-se acuado por demônios de criação própria - em geral, a combinação dos dois leva os personagens da política a cometer erros.

É real o cerco que sofre no Judiciário. O filho Flávio é investigado pelo conhecido esquema das "rachadinhas", uma série de inquéritos faz menções a ligações do clã Bolsonaro com milícias no Rio e o TSE está tratando da acusação do envio de mensagens durante a campanha eleitoral de 2018. Porém, tratam-se de dores de cabeça que, tomadas isoladamente, até aqui não são arrasadoras.

Como é perfeitamente normal em sistemas políticos abertos, atribulações com o Judiciário são fartamente utilizadas por adversários. Que agem segundo o habitual método (nem foi a Lava Jato que inventou isso) dos vazamentos de inquéritos ou, nos últimos dias, de divulgação de áudios de figuras como Fabrício Queiroz, essa espécie de assessor "faz tudo" que é muito útil no dia a dia dos políticos e muito perigoso pelo que podem dizer.

Note-se que adversários, nesses casos mais recentes, não são apenas a oposição composta por correntes políticas antagônicas, empenhadas como em qualquer outro lugar em atrapalhar o governo. Os ex-companheiros de luta do próprio presidente são hoje seus mais ferozes críticos, e os mais raivosos ao prometer vinganças. É o resultado comum de ondas disruptivas como a das eleições de 2018: depois da vitória, os diversos componentes dela vão disputar o poder entre si, e Bolsonaro sempre favoreceu seu clã em detrimento do resto.

Fatos concretos levaram o "mito" a criar fortes laços de dependência em relação a duas instâncias políticas que ele, como candidato, jurou que desprezaria ou transformaria radicalmente. A primeira é o âmbito do STF, através sobretudo da figura de seu presidente, ministro Dias Toffoli, visivelmente empenhado em aliviar dores de cabeça políticas e pessoais de Bolsonaro. Mas, se quiser, pode aumentá-las substancialmente.

A segunda é a esfera da "política tradicional", à qual Bolsonaro se dedica agora de forma tácita porém não declarada, pois admitiu com perigosa lentidão que não governa sem ela. O desarranjo de suas próprias forças, ilustrado no episódio das brigas do PSL, tem como óbvia consequência a necessidade incontornável de se apoiar e depender de outros grupos, a exemplo do que já acontecia com a liderança do governo no Senado.

Com um pouco de distanciamento percebe-se que esse contexto acima nada tem de excepcional, muito menos as brigas de Bolsonaro com setores da imprensa (pode-se dizer que há décadas a história política do Brasil está recheada desse tipo de conflito entre governantes e grupos de mídia).

Ocorre que os verdadeiros donos de sabedoria política tratam de exercitar a serenidade e o cálculo frio essenciais para se navegar em águas turbulentas - mas o que Bolsonaro está exibindo é a caricatura de um personagem consumido no caldeirão fervente de seus próprios demônios, as vezes chamados de hienas.

Ele prefere enxergar sobretudo conspirações e inimigos ocultos (seu ídolo, Donald Trump fala sempre de um "deep state") mancomunados para derrotá-lo em sua missão divina e tornada possível por um milagre (sobreviver à facada), num tipo de visão de mundo que inclui mesmo o resto do mundo (conspirações ou forças do mal arquitetando-se no Chile, Argentina, óleo nas praias, Amazônia etc).

Lutando contra seus demônios, vai sendo engolido pelo "buraco" (a expressão é do próprio Bolsonaro) no qual está um país estagnado, recuperando-se muito lentamente da mais brutal recessão da sua história, habitado por milhões cujas expectativas não atendidas crescem tanto quanto sua impaciência - isto sim, é diabólico.

 

 


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