Editorial

Boas iniciativas que se arrastam

02 de Julho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Há cerca de dois meses a Câmara de Vereadores de Pelotas tomou a frente visando garantir o acesso de crianças de famílias de baixa renda a escolas de educação infantil. Diante das incessantes reclamações de pais que não conseguiam matricular seus filhos na rede pública devido ao número ainda insuficiente de vagas, os parlamentares decidiram encaminhar possíveis soluções: garantiram recursos do Legislativo para compra de matrículas em escolas privadas e aprovaram em plenário lei autorizando a prefeitura a assim proceder a partir dos recursos assegurados.

Porém, como mostrou reportagem da edição de sexta-feira do Diário Popular, dois meses se passaram desde então e nada avançou. Nenhuma vaga foi adquirida pela prefeitura em creches particulares. Pior: até o momento o Poder Público sequer tem levantamento pronto sobre o valor a ser investido em cada vaga a ser contratada ou o número de crianças que podem vir a ser contempladas. E não devem ser poucas. Em abril a própria Secretaria Municipal de Educação e Desporto (Smed) contava 1,4 mil crianças entre zero e três anos fora das creches. Número que estimava ser ainda maior diante da possibilidade de muitas famílias nem terem tentado fazer a matrícula por saberem da falta de vagas.

Mesmo que o número possa ser menor, fato é que há ainda muitas crianças sem creche, mesmo depois de passado um semestre inteiro de 2022. Logo, são algumas centenas de pais – mães, sobretudo – que permanecem sem ter um lugar seguro para deixar os filhos enquanto trabalham, estudam, buscam sustento e qualificação para melhorarem de vida e, quem sabe, ali adiante não dependerem mais de forma tão direta do Poder Público. E mais: estas crianças estão crescendo sem a oportunidade de conviver em um ambiente estimulante para o desenvolvimento, com atividades educacionais, lazer e alimentação adequada.

E nunca é demais lembrar: Pelotas, assim como outras cidades, tem uma série de esqueletos de escolas infantis. Construções que foram prometidas com recursos federais e municipais, que atacariam o déficit existente na rede pública e que até hoje permanecem sem prazos para retomada e entrega, embora consideradas prioritárias pela prefeitura.

Frente à justificável indignação das famílias sem creches para suas crianças, a Câmara de Pelotas agiu bem e rápido. No entanto, é preciso que a burocracia não arraste ainda mais o acesso à educação infantil. A cobrança existe, continuará e uma solução é esperada. Tanto para a compra de vagas na rede privada quanto para o andamento das obras paradas. Se educação é mesmo prioridade, quem sabe os tantos deputados e senadores que têm relações políticas locais não se engajam e garantem os recursos?


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