Artigo

Bento, a ciência e o cuidado com as pessoas

12 de Janeiro de 2019 - 11h08 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger
Professor da UFPel, cantor, ator e diretor teatral

Aqui no meu recanto, sob este calor de torrar os miolos, fico na sombra do jacarandá à beira da sanga, tomando o mate e matutando como se eu fosse um Buda de bombachas e alpargatas. Fico admirando a leve corrente carregando seixos, folhas de árvores e flores; fico observando o movimento dos lambaris cutucando as margens em busca dos insetos que pousam sobre a pele da água. Bento dorme estirado no rincãozinho mais úmido da sombra, ao lado do caule. Meu cusco é assim. Dorme como nunca, mas está alerta como sempre. Já sei que qualquer coisa ou ruído estranho, de alguma assombração confusa entre o dia e a noite, ele levanta num zás, em prontidão, já mostrando os caninos. Se for gente de mala leche, mula sem cabeça, lobisomem ou fantasma, ele faz correr o intrometido a mordidas nos garrões.

Nesta tarde mormacenta, tudo parece estar sesteando. Mal e mal uma folhinha se move. Uma aragenzinha salvadora às vezes dá uma leve refrescada, emprestando um pouco de ânimo às minhas meditações. Acho que a Natureza ensina muito. Mas ensina a quem quer aprender. Tem que se ouvir a Natureza. Al reves, o peão vai ser eternamente um bocó ou, como já li num livro de biologia, só um organismo ou um títere, como alertam alguns estudiosos da sociedade. Bento, que é quase um ente humano, já não tem muito o que e como saber, é um cusco, um bom cusco, leal, alegre e cuidadoso. Mas tem gente espalhada por estes campos e urbes que não é nada leal, nem alegre e nem cuidadosa.

Tempos atrás fui pra cidade visitar minha filha, que havia se mudado para estudar. Coisa bem bonita, isso. Porque a Natureza ensina, como eu já escrevi, mas a ciência é o suprassumo do conhecimento, é o acender do fogo da vida, é a picanha de um bom churrasco. Ela até explica porque a Natureza ensina e, inclusive, como bem preparar o assado deste corte que tanto aprecio. Só de pensar e visualizar a imagem em minha mente, fiquei me babando. Parece que o Bento pressentiu a minha miragem. Levantou a cabeça e deu umas cheiradas para verificar se era verdade ou não. Conheço aquelas aves migratórias que vêm e vão todas as mesmas estações do ano. É lindo de ver. Mas, coitadas, elas não podem deixar de ir e vir, nem podem parar aqui debaixo do jacarandá e ficar um ratito comigo para tomar um mate e jogar uma conversa fora, nem que seja na língua dos pássaros.

Minha filha, que é uma passarinha cheia de encanto, tomou a decisão de ir para a cidade estudar de forma livre e autônoma, para bem dizer, porque assim quis quando viu que era melhor para ela. Deixou um vazio na casa, uma tristeza que tive que engolir. O Bento custou a se conformar com a ausência. Ficou taciturno num canto do quarto dela durante dias. Era difícil explicar para ele que a decisão de minha filha era uma coisa boa. O pobre do bichinho não teria como entender. Só o passar do tempo para fazê-lo voltar a ter alegria.

Na cidade, minha filha me levou a conhecer a universidade, lugares históricos e me levou ao cinema. Nunca eu tinha ido ao cinema, só de ouvir os sobrinhos quando iam me visitar. O que a ciência e a criatividade não fazem? Que maravilha, eu parecia um guri em festa de aniversário. Aproveitamos para ir ao médico, fazer exames, que há muito precisava. Embora eu fale com o patrão-velho, sei que isso é uma ilusão e é só um conforto íntimo. Sem a medicina, os antibióticos e os estudos, eu e quase todo o mundo que conheço já estaríamos sendo comidos pelos vermes. À noite, ela me apresentou sua namorada, uma rica de uma guria. As duas estão muito felizes. O Bento também ficaria feliz, porque, embora sendo um cusco, ele é leal, alegre e cuidadoso. Ele cuida das pessoas.

(*) De férias, volto em fevereiro.

 

 


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