Editorial

Barulho contra o estado de guerra

29 de Novembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Enquanto os nomes das mulheres vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul em 2021 eram lidos no sábado, em frente ao chafariz das Três Meninas, no Calçadão de Pelotas, o tambor de sopapo recebia uma batida, representando o coração de cada uma. Foram mais de 80 pancadas no instrumento. Todas em tom de homenagem. Todas muito dolorosas.

Apesar de a maioria dos indicadores criminais do Estado apresentarem queda, o número de crimes relacionados à violência de gênero não segue esta tendência. Os feminicídios, que nos primeiros dez meses deste ano já superam o total de 2020, evidenciam uma resistência da sociedade gaúcha em promover uma mudança de cultura voltada ao respeito e à igualdade das mulheres. Por isso atos como o realizado no sábado, Boca na Tribuna, promovido pela Frente Feminista 8M Pelotas e que estampa a página da editoria de Segurança do Diário Popular de hoje, se tornam ainda cada vez mais necessários.

Muito além dos índices de feminicídios consumados no Rio Grande do Sul, outras estatísticas também deixam um enorme alerta para a crise humana em que estamos mergulhados. Conforme os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, somente em outubro passado foram 2.677 registros de ameaças, 1.646 de lesão corporal e 176 de estupro nas delegacias gaúchas. Em um cálculo rápido, chegamos à realidade de que, em média, diariamente 89 mulheres foram ameaçadas, 55 sofreram alguma agressão física e cinco foram estupradas no RS em 30 dias. E esses dados são relativos às sobreviventes.

No cenário nacional, da mesma forma, nada a comemorar. Números recentes divulgados pelos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão apontam que 30% das mulheres brasileiras dizem já terem sido ameaçadas de morte por um parceiro ou ex e uma em cada seis sofreu tentativa de feminicídio. Outro dado alarmante é quanto à reação: o estudo mostra que apenas 34% denunciaram à polícia e 12% sequer tomaram alguma atitude.

O homem, ao longo do tempo, assumiu um papel de "inimigo" natural. O machismo estrutural, que criou e fortaleceu outras formas de violência além da física, como a psicológica, a étnico-racial e a das políticas de gênero, oferece cada vez menos espaço para o crescimento da mulher na sociedade. Só o que cresce invariavelmente é o sentimento de temor.

Em entrevista ao DP, a ativista Eva Santos, que participou do Boca na Tribuna, deu um depoimento forte. "Não é possível que a maioria da população tenha que viver permanentemente em estado de guerra". Eva, que além de filha também é mãe e avó, disse que já ensina à neta de cinco anos maneiras de estar atenta e se proteger na rua de possíveis violências. Igualmente forte, como cada frase, mostrou-se a própria Eva, que carregava nas vestes o nome de várias vítimas de feminicídio.

Não é mais possível viver assim. É essencial oferecer segurança às vítimas para que os agressores sejam denunciados e para que chegue ao fim a incômoda sensação de impunidade. O Poder Público precisa agir. Nós, enquanto sociedade, também. Assim como ocorreu no sábado, o silêncio precisa ser rompido - com a união de várias vozes e com novas batidas nos sopapos, mas estas - tomara - de alegria. É justamente fazendo barulho contra as várias facetas do machismo que as mulheres poderão, enfim, trilhar um caminho sem medo.


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