Artigo

Baptista Pereira, o ensaísta que elogiou o patrimônio cultural de Pelotas?

14 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Dois momentos.  À esquerda, a praça Cel. Pedro Osório em 1910; e à direita, na década de 1960.

Dois momentos. À esquerda, a praça Cel. Pedro Osório em 1910; e à direita, na década de 1960.

Dois momentos.  À esquerda, a praça Cel. Pedro Osório em 1910; e à direita, na década de 1960.

Dois momentos. À esquerda, a praça Cel. Pedro Osório em 1910; e à direita, na década de 1960.

Por Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Considerado como "um dos mais ilustres intelectuais brasileiros, genro de Rui Barbosa e Secretário da famosa Conferência de Haia", uma das melhores apresentações a respeito de Antonio Baptista Pereira foi realizada por seu amigo Rubens de Azevedo, professor assistente de Astronomia e Astronáutica da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba (Revista do Instituto do Ceará, 1991, p. 331-333). Advogado, diplomata, historiador, ensaísta, filólogo e conferencista, Baptista Pereira nasceu em Pelotas no ano de 1879, deixando a cidade por volta dos quinze anos para cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco em São Paulo. Verdadeira "enciclopédia ambulante", são de sua autoria dezenas de obras, dentre as quais "A formação espiritual do Brasil" (1930) e um dicionário de "Tupi-egípcio" em 12 volumes, até hoje inédito. Defendendo-se daqueles que não o consideravam nem rio-grandense nem pelotense, ele afirmou na conferência "Pelotas e seus destinos", proferida no Theatro Guarany em 22 de março de 1924: "perdem tempo os invencionistas. Sou de Pelotas. A ausência não tem a propriedade de mudar o berço do indivíduo". Crítico de Borges de Medeiros, que percorria o Estado naquele ano refletindo sobre os rumos políticos e culturais do Rio Grande do Sul, ele retornava "após trinta anos" à sua cidade natal. Texto ausente na historiografia local, eis alguns trechos de sua parte final:

"É preciso nos despedirmos. Mal falei de Pelotas. E se quiserdes que a defina numa palavra eu a definirei: iniciativa. / Bem razão tinha Francisco Simões, o denodado batalhador da nossa causa, em afirmar, numa conferência memorável, que Pelotas é de Pelotas. Que quis ele dizer? Que Pelotas só pertence aos pelotenses? / Não. / Pelotas pertence a todas as atividades que aqui queiram erguer a sua tenda de trabalho. / Sua frase não é um grito de egoísmo: é um brado de orgulho, mas de orgulho íntimo. Pelotas é de Pelotas, porque Pelotas é filha de Pelotas, porque Pelotas, de tudo que tem, não deve nada senão aos pelotenses.

Sob este aspecto da iniciativa particular, Pelotas é o exemplo do Brasil. Até chegar aqui e revê-la, pensava eu que a cidade modelo do Brasil fosse Araraquara, em S. Paulo. Em calçamento, arborização, higiene, serviços públicos, enfim, Araraquara é um padrão de cultura. Mas tudo ali é feito pela Municipalidade (...). / Em Pelotas, dá-se o contrário. Tudo é feito pelo pelotense. Tudo não: quase tudo. Não cometerei a inconveniência de negar que todos os serviços municipais de Pelotas são incomparavelmente superiores aos de Porto Alegre. Pelotas é calçada; Porto Alegre é ouriçada de pedregulhos e apenas começa a conhecer as delícias do paralelepípedo.
As instituições pelotenses, formidáveis padrões de cultura, têm se desenvolvido à revelia do governo. / Vejamo-las. / A Bibliotheca Pública, famosa em todo o Estado (...) iniciativa particular. A Escola de Agronomia (...) A Escola de Artes e Ofícios (...) A sociedade Agrícola Pastoril (...) iniciativas particulares. Além dessas instituições não me posso deixar de referir a outras: (...) ao Conservatório de Música, ao Banco Pelotense (...) / Ao Club Caixeiral, com uma biblioteca de 10.000 volumes (...) A Santa Casa de Misericórdia, a primeira do Estado (...), a Beneficência Portuguesa, estabelecimento modelar (...). / Só hoje compreendo por que Pelotas mereceu o nome de Princesa do Sul. Pela sua iniciativa (...) pela antevisão, pela cultura de seus filhos. (...) Aqui temos a planura da Holanda. Mas, como a Holanda é o jardim da Europa, Pelotas, é o jardim do Rio Grande. / Da Holanda se diz que, exceção única entre os países do mundo, é criada pelo homem e não pela natureza. Da beleza da terra de Pelotas, do viço e do esplendor dos seus bosques e jardins pode afirmar-se com orgulho que são filhos dos pelotenses. / Vede as praças públicas, vede os jardins e parques particulares, vede a florestação das avenidas e logradouros.

(...) A luz atmosférica de Pelotas é floculosa, esbatida, algodoada, cetinosa. Há nela a espiritualidade brumosa das paisagens de Carriére. Deus, quando criou a América do Sul, depois de ter feito o Uruguay, antes de subir para o Equador deixou cair nesta zona as neblinas do Prata. Mas vieram os Minuanos e adelgaçaram-nas conquanto as não varressem de todo. / Dai nos nossos horizontes eneblinados sorrir paradoxalmente a luz dos poentes tropicais do Rio de Janeiro.

(...) Não sentis que estamos na Pelotas construída sobre o rochedo da consciência nacional? Não sentis que estamos na Pelotas eterna, na Pelotas edificada sobre o granito da Independência, dos Farrapos, do Paraguay, da Abolição, da Propaganda, da República, da Aliança Libertadora? Não sentis que estamos desta vez na verdadeira Princesa do Sul, na Pelotas construída sobre o livre coração dos seus filhos? / Eu o sinto. / Nós o sentimos".

Pressentida de certo modo por Baptista Pereira, a definição de "Patrimônio Cultural" ganharia lugar na Constituição Brasileira de 1988. Se aqui resgatamos trechos de sua conferência foi para prestar uma homenagem ao tema "Narrativas abrangentes: memórias e identidades", com o qual se celebra, este ano, nos dias 15 e 16 de agosto, o Dia Estadual do Patrimônio Cultural.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados