Artigo

Assim nasceu O Pequeno Príncipe

09 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Antoine de Saint-Exupéry, Saint-Ex para os amigos, passa os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos. Na Terra de Tio Sam é assíduo frequentador da pequena colônia dos artistas refugiados em Nova York: André Maurois, Jules Romains, Breton, Dali, Miró, Tanguy, Max Ernst, André Masson ... Com os amigos Rougemont e Duchamp joga muitas partidas de xadrez: quase sempre ganha do primeiro, mas perde para o segundo. 

Em fins de 1941, Consuelo junta-se a ele. Ela procede de Marselha e da Villa Air-Bel. Antoine manda um amigo apanhá-la no desembarque do navio. Uma recomendação: Consuelo não deve responder a questionamentos de jornalistas. E quando um deles lhe pergunta se ela é mesmo a esposa de Saint-Exupéry, ela desembaraçadamente responde-lhe: "Não, sou sua empregada". Antoine a espera um pouco mais adiante. Leva-a para jantar em um restaurante onde se reúnem os seus amigos, que ela ainda desconhece. Findo o jantar, ele a conduz a um hotel onde lhe reservara uma suíte. "Mas e você?", pergunta Consuelo. "Bem, eu estou em outro lugar", responde-lhe. Em verdade, ele não faz nada além de estender seu modo de vida em Paris antes da guerra. Lá, ele tinha amantes; ela tinha amantes. Vale aqui o mesmo que valia lá. Mas o tempo os aproxima. Saint-Exupéry acaba por alugar o apartamento de Greta Garbo e, depois, uma mansão em Long Island. E passam a morar juntos. Consuelo reencontra os pintores surrealistas franceses instalados em Nova York; ele escreve A Cidadela. Como costuma trabalhar à noite, acorda-a sem qualquer consideração pela hora e pede-lhe que lhe faça ovos mexidos. Come-os sozinho. Fuma um cigarro atrás do outro. Bebe gim com Coca. Toma café. Dita em um ditafone as páginas que, no dia seguinte, sua secretária irá datilografar. Lê capítulos da obra que escreve aos amigos de passagem: Rougemont, Jean Gabin e Marlene Dietrich.

Certo dia, no verão de 1942, Saint-Exupéry almoça com seu editor norte-americano no Café Arnold quando, na toalha da mesa, desenha mecanicamente um homenzinho com olhos redondos e cabelo desgrenhado. O editor observa o contorno aparente. Logo surge-lhe uma ideia: "Por que você não faz um livro com ele? Um livro para crianças?" Pois bem. O homenzinho nascera para o autor um ano antes. Padecendo de sequelas de inúmeros acidentes de avião, Saint-Ex fora hospitalizado em uma clínica em Los Angeles. Na ocasião, René Clair o visitara, presenteando-o com um estojo de aquarelas. Esse é o passe de mágica que trará à luz O Pequeno Príncipe, com texto e ilustrações de Antoine de Saint-Exupéry. Oitenta milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro!

No início de 1943, o editor publica simultaneamente uma versão em inglês e outra em francês. Gallimard publica-o em cores, em 1946. Na França, O Pequeno Príncipe é proibido. Depois, é publicado às escondidas em Lyon, e elogiado na clandestina Les Lettres françaises. Hoje universal, com personalidades plenas de simbolismo, a obra mostra uma profunda mudança de valores. Mais: sugere ao leitor quão equivocados podem ser os julgamentos humanos e como eles podem nos conduzir à solidão. "Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados