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As boas notícias e a pobreza de perspectivas

04 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Manoel Jesus, educador
manoeljss21@gmail.com

O Jornal Nacional do último sábado abriu com matéria que tinha como fonte o grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pelotas que trata da pandemia. Em meio a tantos números negativos, surge um vislumbre de esperança: depois de iniciada a imunização, na faixa etária acima de 80 anos, diminuiu sensivelmente o número de mortes. Some-se a um outro dado levantado pelos cientistas de que o uso de máscaras reduz em mais de 80% a possibilidade de contágio e se tem a possibilidade de, apesar das trapalhadas dos administradores públicos, acreditar que existe luz no fim do túnel.

A notícia é boa. Não o suficiente para pensar que aqui é um "novo Israel", onde o isolamento, negociações iniciadas cedo para compra vacinas e aplicação em massa fizeram as imagens de festas e rostos despidos deste acessório, do qual gostaríamos de abrir mão. Infelizmente, o bater de cabeças, informações desencontradas, petulância e incapacidade dos gestores nos colocaram atrasados na fila do mercado internacional de imunizantes, assim como maus exemplos…

Os números são apresentados como se fosse a disputa por um pódio. Somente se for uma corrida de tartarugas. Em dois meses, contentar-se em que o Brasil chegou a vacinar 15% da sua população é muita pobreza... e nem consola saber que o Rio Grande do Sul está beirando os 20%. A repetição destas planilhas em programas de televisão, especialmente, entrou num processo de "naturalização", tornando a maior parte da população indiferente, especialmente ao perigo ao qual está exposta.

"Naturalização" são valores que alguns meios de comunicação - em especial a televisão, através de suas novelas - entranham na população, sob o formato de pílulas bem-apresentadas, jogando no ostracismo instituições que ajudavam a formatar valores e referências. Também a programação do jornalismo se transforma em espaço de disputa numa guerra financeira, de vaidades e poder, com a população assistindo (literalmente) e pensando que dá a última palavra, mas alijada do processo…

Revista de circulação nacional destaca a benemerência de grupos empresariais e financeiros. Espelha-se nos Estados Unidos, onde a filantropia faz história, para dar sua mensagem: fazem o papel de "sociedade", que não deveria preocupar o estado. Como assim? O estado existe para suprir carências do cidadão. Em tempos de crise, com uma longa estrada pela frente e instituições que atendem a estas demandas tensionadas e cansadas, vai-se "privatizar" o atendimento social?

A sociedade real esgota sua capacidade. Mal comparando, é o mendigo que ganha marmita, encontra companheiro e reparte, socializando da miséria. Algumas notícias são boas, mas as perspectivas não. Depois da pandemia, é preciso um período maior para ajustar a vida social e a economia. Pela falta de lideranças efetivas, leva-se mais tempo, mas assim como há uma maioria silenciosa preocupante, há quem não desistiu e insiste em dar o máximo para ver a gratidão de quem recebe comida, a peça de roupa, o carinho - a certeza de que ainda não perdeu a dignidade humana!


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