Editorial

Arroz, feijão, legumes, óleo… e o leite

27 de Junho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Se o leitor tem o hábito de ir até o mercado com alguma frequência fazer as compras da casa observando com atenção a variação de preços, certamente percebeu: o leite nosso de cada dia entrou em uma trajetória de aceleração espantosa. Em poucas semanas, o litro do produto em caixas longa vida - o mais comum e preferido dos consumidores - passou da faixa dos R$ 5 para próximo dos R$ 7. Às vezes até mais, a depender da marca e do estabelecimento. Uma alta aproximada de 40%.

Em reportagem publicada na semana passada, o Diário Popular abordou o tema e questionou produtores sobre o que estaria levando a esta alta que pesa nos bolsos das famílias. Afinal, o consumidor que se assusta na frente da gôndola pode pensar se tratar de um lucro extra de quem está no campo e fornece o leite que chega às indústrias e mercados. Antes fosse. A inflação que atinge o consumidor é o drama também dos criadores do gado. Para eles, o custo dos insumos e de toda a base da cadeia leiteira, nas propriedades, tem de fato tornado o leite mais caro, mas também achatado suas margens de lucro. Enquanto produtos como a ração e fertilizantes em alguns casos até dobraram de preço, o acréscimo no litro pago a estes trabalhadores tem sido em torno de R$ 0,10.

Uma das consequências é que o negócio deixa de ser atrativo para muitos produtores. Aqueles que conseguem se reorganizar, abandonam ou reduzem significativamente o investimento no leite e migram para outros itens, como soja e milho. Tanto que, conforme o IBGE, o Brasil enfrentou no primeiro trimestre de 2022 uma queda recorde na produção, com -10,3% na comparação com o começo de 2021. No Rio Grande do Sul, a captação diária de leite está em pouco mais de dois terços da capacidade de processamento, o que tem feito indústrias reduzirem suas operações. E, logicamente, a oferta reduzida de produto no mercado pressiona os preços dos lácteos para cima. Some-se a isso ainda as estiagens frequentes com insuficiente política de mitigação por parte do Estado, o custo das embalagens e da logística - baseada no transporte por caminhões a diesel, que já está quase com o preço da gasolina - e se constrói um problemático círculo cujo resultado é notado a cada ida ao supermercado.

Enquanto famílias de classe média ainda conseguem fazer ajustes no orçamento para manter o leite no carrinho, outras tantas de baixa renda acabam tendo que reduzir o consumo ou, até, ficar sem esta que é uma fonte importante na dieta alimentar brasileira. Assim como já ocorre com tantos outros itens fundamentais que não param de subir, como carne, óleo, arroz, feijão, legumes… Uma lista cada vez maior.


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