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Apocalipse do Brasil

24 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

As previsões apocalípticas nos acompanham desde o berço da humanidade. Uma tragédia irá acontecer para nos castigar por nossos abusos imorais e nossa falta de fé em Deus. Bispos enviesados, profetas do pau oco, bebuns, astrólogos, pastores perturbados, malucos e infelizes pregaram por todas as partes e lugares da circunferência terrestre, o fim dos tempos. Ao não compreender uma peste, uma epidemia, uma fome generalizada, um terremoto, um tsunami e a morte de milhares de pessoas, a explicação era buscada nos céus, em uma punição divina para desentortar o mundo e colocar a humanidade nos trilhos em que pese a morte de bebês e a ausência de debate sobre o raio dos trilhos.

Como alguns sentenciavam: o Deus é misericordioso, mas cobra sacrifícios. Mesmo de recém-nascidos e de velhos abandonados. Na virada do primeiro milênio, para limpar o mundo dos impuros, o ocidente viveu batalhas e genocídios de cristãos contra cristãos, de cristãos contra povos de outras religiões ou contra quem não tinha religião nenhuma. Muito sangue para esperar a volta do messias que nunca deu as caras. Os que se julgavam puros assassinavam os que eles, os puros, julgavam impuros. Ainda hoje há gente sem noção que atribui a culpa da própria pobreza e das tragédias naturais ao rock'n'roll, aos gays, às mulheres e, como sempre, ao sexo. E lotam os templos de adoração da alucinação.

Contudo, na linha do tempo, de lá para cá, as visões apocalípticas, embora muitas vezes com resultados desumanos, eram ingênuas e sem fundamento. Estamos aqui, sobreviventes, mas nem tão felizes assim. A não ser que você faça parte do 1% de brasileiros que detém mais de 50% da riqueza do país. Ou quase isso. O fim dos tempos, talvez, seja metafórico, no sentido de passagem de um período a outro, de avanços ou de retrocessos. Parte dos países islâmicos, por exemplo, vive nessas últimas décadas um retrocesso sem precedentes sujeitado às armas do Talibã e do Al-qaeda: tirania, religião e fuzis, sem investimentos em educação, ciências e artes, persecução a mulheres, gays e diferentes etnias. Apocalipse de uma civilização que contribuiu muito em nossa história.

O Brasil experimenta condição semelhante. O projeto do MEC para as instituições federais de Ensino Superior, o Future-se, é um exemplo de boçalidade, para não falar de outras tantas, como a volta da censura. Por detrás do jogo de palavras clichê de alavancar a educação, na verdade, o governo abre mão de sua responsabilidade e dos investimentos, abandonando as Ifes aos interesses do mercado. É como dar à iniciativa privada a prerrogativa daquilo que devemos estudar. O mercado financeiro, os fabricantes de agrotóxicos e de armas irão adorar. Veremos, entre tantas consequências de curto a longo prazo: o fim da gratuidade do ensino, a obstrução de ingresso e permanência de estudantes economicamente fragilizados; doação do patrimônio público, material e imaterial, das Universidades para a iniciativa privada; terceirização da gestão, dos serviços técnico-administrativos e, inclusive, das atividades-fim das universidades (ensino, pesquisa, extensão e cultura); incentivo às desigualdades regionais entre as universidades localizadas nos grandes centros econômicos e as periféricas, como a UFPel, cujas finalidades educativa e social são fundamentais para a cidade e para a região; marginalização das áreas de conhecimento sem interesse imediato para o mercado, tais como as ciências sociais e aplicadas, as artes e a educação.

O Future-se entrega as Ifes, patrimônio público, à especulação do capital privado, objetivando o fim da autonomia universitária. Muitas Ifes já manifestaram sua contrariedade ao projeto do MEC. A UFPel, através da sua reitoria e dos conselhos, escreveu uma excelente análise do projeto rejeitando-o, e que merece ser lida por todos. Antes que o Talibã verde e amarelo fique à vontade e vivamos um verdadeiro apocalipse.


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