Artigo

Apesar do título, é um belo texto

23 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Sou péssimo em criar títulos. Por isso, admiro a criatividade de autores que conseguem chamar a atenção do leitor só pelo nome da obra. Nunca seria capaz de criar um título como “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”. Charles Bukowski conta que criou esse título apenas porque achou que seria legal ver um livro com essa frase na capa numa livraria qualquer, afinal, é uma coletânea de crônicas e contos autobiográficos que não se relacionam em nada com o que sugere o título.

Lembro que teve um livro que ficou martelando na minha cabeça por anos por causa do título, até que alguns anos atrás eu comprei e li: “Pra te comer melhor”, do escritor argentino Eduardo Gudino Kieffer. Recordo que se trata de um romance fragmentado com uma linguagem altamente poética e literária. Se você é um apaixonado por literatura-cabeça, leia. Já se você é um leitor de best-sellers, não force muito seu cérebro, pois vários de seus neurônios explodirão. É um daqueles livros que você precisa superar as 20 ou 30 páginas para começar a associar os personagens e a linkar as histórias, mas depois que você faz isso, a leitura fica muito prazerosa.

Um mestre em criar títulos criativos é o escritor, jornalista e professor Felipe Pena. “O marido perfeito mora ao lado” e “O analfabeto de passou no vestibular” são dois de seus romances. No entanto, um dos melhores livros dele tem um título mais discreto: “Fábrica de diplomas”. Trata-se de uma ficção que, no fundo, critica a mercantilização do ensino superior, como bem sugere o nome da obra. Mas não é um enredo supérfluo, com personagens vazios e caricatos, mas sim, com viagens psicológicas que vão fundo na complexidade de cada sujeito. Já no que se refere ao caráter mais crítico-social do livro, eu destacaria três elementos. Primeiro, a educação superior como negócio sendo máquina de caça-níqueis e como ferramenta para enriquecimento pessoal. Segundo, o mundo universitário no contexto do tráfico de drogas do Rio de Janeiro. Por fim, a corrupção de todo o sistema (político e educacional), que aparece justamente na forma de suspense policial. Além disso, o livro tem o grande mérito de manter uma questão-chave até o final e que prende muito a atenção do leitor: quem é o Doutor? Essa pergunta norteia a história e, obviamente, não vou apresentar aqui a resposta para não estragar o eventual prazer de ninguém.

Alguns títulos são enigmáticos e se tornam autoexplicativos ao longo da obra. “Um defeito de cor”, de Ana Mari Gonçalves, que trata da saga da personagem Luiza Gama, africana sequestrada no início do século XIX para ser escrava no Brasil, teve esse título porque, conforme fica explícito ao longo do romance, os negros que conseguiam comprar a carta de alforria, para poder trabalhar, tinham que assinar um documento assumindo que tinham “um defeito de cor”. Essa é uma das histórias que tornam o Brasil um dos países com maior racismo estrutural do mundo. E do jeito que a coisa vai, logo será o primeiro do ranking global nesse triste quesito.

Como falei lá no início, eu sou péssimo para criar títulos. Geralmente, quando mando o link de meus textos para amigos e conhecidos, tenho que acrescentar, do alto da minha humilde megalomania: “apesar do título, é um belo texto”. Aliás, creio que acabei de achar o título dessa crônica. Um bom final de semana a todos.


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