Artigo

Aniversário de Pelotas - O braço negro na construção da cidade

07 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Vicente Amaral, vereador do PSD e líder comunitário

A primeira referência histórica do surgimento do município data do mês de junho do ano de 1758, através das doações que Gomes Freire fez ao coronel Tomás Luiz Osório de terras à margem da Lagoa (Laguna) dos Patos. Em 1780, o português José Pinto Martins abandona o Ceará, por causa da seca, e funda, às margens do Arroio Pelotas, a primeira charqueada. O sucesso de outras charqueadas e o crescimento da região foram o marco inicial do município, em 07/07/1812. Sendo seu nome derivado das embarcações de vara de corticeira forrada de couro que, na época eram utilizadas para a travessia de rios e arroios. Cultura essa trazida da Europa, a fim de possibilitar a exploração charqueadeira.

E assim, as charqueadas se instalaram definitivamente no Rio Grande do Sul, a partir do pioneirismo de Jose Pinto Martins, no ano de 1779. Desde então, graças à ampliação do mercado consumidor de charque, devido ao desenvolvimento da lavoura no centro-norte do país, foram-se multiplicando num centro produtor, que perdurou por mais de um século, explorando a mão-de-obra escrava. O trabalho nas charqueadas era extremamente penoso e estafante. Sendo utilizado, para tanto, o trabalho compulsório dos negros. Na época da safra, os escravos trabalhavam mais de dezesseis horas diárias, já no período de entressafra - de maio a outubro - eram deslocados para as olarias para a fabricação de telhas e tijolos e para a construção dos casarões que hoje formam o patrimônio artístico e cultural pelotense.

É importante ressaltar que, na época, havia dois tipos de escravos: os qualificados e os sem qualificação. Aqueles eram utilizados no manejo como charque: produção e transporte-, enquanto estes realizavam os demais serviços. As mulheres - em número bem inferior ao dos homens - realizavam as atividades domésticas. Havia, em média oitenta e quatro cativos por charqueadas, variando conforme o período.

Em Pelotas, parte do século XIX caracterizou-se, em termos populacionais, por uma ampla maioria negra, fato que é visível ainda hoje. Isto porque, na época, a cidade foi uma das que mais receberam escravos africanos. Exemplo disso é que a localidade chamada, no princípio, de Passo dos Ricos, atualmente chama-se Passo dos Negros. A mudança de nome deu-se graças ao intenso comércio de escravos que ali corria.

Os negros vinham dos mercados centrais do Brasil, eram levados até Rio Grande e de lá para as charqueadas de São Francisco de Paula, onde eram submetidos a exaustivos regimes de trabalho, sendo tratados com rigor e violência, o que ocasionava, muitas vezes, fuga, suicídios, abortos e infanticídios. Outras pequenas resistências também ocorriam no dia a dia, tais como: fugas noturnas e encontros amorosos, bailes, festas, jogos de azar e até a manutenção das tradições culturais e religiosas, confrontos corporais e formação de Quilombos.

A resistência escrava, fora de Pelotas, durou até 1888, pois, ao contrário do que afirma a história tradicional, o regime escravacionista não teve seu fim antecipado em 1884, ao contrário do que aqui ocorreu. Assim, as fugas, as revoltas, os quilombos e as demais resistências permaneceram até 1888, nos demais locais, até a promulgação da Lei Áurea. Lei essa que assinalou o término oficial da escravidão, mas não o fim da luta dos negros por sua cidadania.

Pelotas deve, então, muito de sua riqueza aos negros, os quais deveriam receber o necessário reconhecimento, nesta data alusiva aos 208 anos de sua fundação. Mas a cidade é reconhecida, nacionalmente, por outros atributos, nem sequer é mencionada a importância do braço negro em sua formação. Prova disso é que o município é conhecido por ser a capital nacional do doce - fruto da influência lusitana - , ser a terra de belas mulheres, por ser uma cidade universitária, que abriga estudantes oriundos de várias partes do país, ou, ainda, por ser uma cidade histórica, com seu rico conjunto arquitetônico.

É possível afirmar, portanto, que a riqueza e a opulência de Pelotas, alcançadas durante o ciclo do charque e cujos resquícios existem até hoje, foram construídas mediante a força do braço escravo: a Princesa do Sul foi "esculpida", literalmente, à base do sangue, das lágrimas e do suor dos negros, os quais ainda tiveram de suportar a tentativa de aculturação por parte do branco opressor: religião, dança, costumes, enfim.

Ademais, na comemoração dos 208 anos da Princesa do Sul, é imprescindível ressaltar que esta é uma cidade bela e histórica e que habitar esta cidade, para mim, que nasci em canguçu em vim pra cá aos 6 anos, é um grande orgulho. Por isso, gostaria de falar de suas riquezas naturais: a praia do Laranjal, o Balneário dos Prazeres, a Cascata do Arco-Íris, o Sítio Panamenho, a antiga passagem do trem para Canguçu - aberta em uma rocha em Monte Bonito, com 300m de comprimento e 10m de altura e a nossa tradicional Fenadoce. Entretanto, é uma lástima o fato de que todo esse potencial turístico não seja explorado em sua totalidade. Além disso, é importante frisar que o município atualmente é considerado, em termos de população, o terceiro maior do estado.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados