Artigo

Angela Merkel no país das narrativas

01 de Dezembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Celina Brod

Que atire a primeira pedra quem não é invadido pela insatisfação, aquela coceira no espírito que teima em estragar as coisas como são. Penso que uma parcela desse comichão vem do seguinte: a mente padece de juízos comparativos. É verdade que nem sempre a grama do vizinho é mais verde e que somos nós que carregamos faltas famintas, o famoso saco sem fundo. Mas, às vezes a grama do vizinho é mais verde, tão, tão mais verde que fica difícil ser grato pelas ervas daminhas de onde vivemos. Hoje pela manhã, antes de enfrentar as demandas da rotina, passei rapidamente pelo corredor polonês do dia: as mídias digitais. Em poucos segundos a coceira da comparação começou.

Foi uma cena simples, porém extremamente significativa, colocando em péssima perspectiva a nossa política. Angela Merkel, após 16 anos na liderança da Alemanha, ganhava do seu sucessor Olaf Schulz um lindo ramo de flores. Ela recebia o gesto com humildade, não como se fosse uma deusa do Olimpo, tinha apenas o sorriso tímido do dever cumprido. Merkel, conservadora de centro-direita, recebia a homenagem de um democrata socialista da esquerda. Tudo ali cheirava a flores: havia delicadeza, gentileza, polidez, espírito democrático e o comprometimento com a civilidade.

Quem diria? Uma nação que foi palco de uma hipnose coletiva perversa - comandada por um homem cujo bigode era tão excêntrico quanto sua psicopatia - agora abrigava uma troca de poder estável, justa e limpa. É bem provável que eu esteja exagerando e que haja alemães com ar casmurro com críticas ferrenhas sobre o conservadorismo de Merkel ou o progressismo de Schultz. Mas, ainda sim, sinto que meu exagero vem do mal da comparação, pois quando olho para cá me deparo com uma decadência sem tamanho.

Nosso atual líder, um pseudo-conservador sem partido, já imitou um doente sufocando, minimizou a gravidade da pandemia, faz símbolo de arminha com os dedos, afundou a economia, protegeu os filhos da corrupção, gastou milhões em Cloroquina, debocha dos mortos e confunde a oposição com parasitas. Sua carreira política é uma coleção de vazios. No exterior, ele é visto como uma piada de mal gosto, um sujeito de risada nervosa e comentários inapropriados. Como na toca do coelho, do clássico Alice no País das Maravilhas, o Brasil transformou-se em um buraco onde as coisas não fazem qualquer sentido.

Nossa crise é política, moral e cognitiva. Em recente entrevista para o jornal El País, o ex-presidente Lula mostrou desconhecer a lógica que separa a léguas de distância líderes democráticos de líderes autocráticos. Quando questionado sobre o governo de Daniel Ortega, Lula rebateu: "Por que Merkel pode ficar 16 anos no poder e ele não?" Lula esquece que na Alemanha funciona o parlamentarismo e que Merkel, diferente de Ortega, não mandou prender seus opositores políticos. Negacionismo parece ser como mau hálito, óbvio para aqueles que estão em volta, imperceptível para quem o assopra. Lula recebeu uma invertida da entrevistadora, era como se ela estivesse entregando a ele um chiclete de hortelã para alertá-lo do equívoco bafiento das suas respostas.

Se na Alemanha de Merkel a palavra democracia respeita seu sentido, aqui na toca do coelho ela se transforma conforme o humor do chapeleiro. Quando Alice encontra o Gato Risonho ela pergunta a ele: "para que lado devo ir?" Ele responde: "depende do lugar que você quer chegar". Ela diz: "tanto faz". "Se você não sabe para onde quer ir, então tanto faz para qual lado você vai", retruca o Gato. "Aqui todos são loucos", ele avisa. E se ela estava lá embaixo também só podia estar louca. Talvez estejamos dormindo e tudo isso é um sonho doido, porque nada mais aqui parece fazer sentido, ter lógica ou juízo. Se não estamos dormindo, então não pode ser verdade que tanto faz para qual lado se vai.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados