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Ampulheta

24 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Caroline de Melo, acadêmica da Famed - UFPel

Das coisas mais implacáveis desse mundo, com certeza o tempo figura no topo da lista. O ser humano já descobriu como dominar diversas coisas, desde o fogo nos primórdios; já inventou coisas complexas, foi ao espaço e voltou... Mas o tempo? Bem, até onde se sabe, apesar de todas as lendas sobre máquinas e viajantes temporais, este ainda não foi desdobrado.

No entanto, é interessante pensar em como o tempo parece passar de formas diferentes, seja ao longo das fases da vida, seja dentro dos próprios espaços dos dias. Comecemos pela infância. Nela, em geral, sentimos que nada vai passar. Rezamos todos os dias para que logo sejamos adultos como se essa fosse a coisa mais incrível do mundo. A noção das horas se traduz na preocupação sobre quando nossas mães vão nos chamar para encerrar a brincadeira para que façamos as tarefas escolares, tomemos nossos banhos e nos preparemos para viver um novo dia que parece ser por vezes uma simples repetição do dia anterior. Não imaginamos o quanto as coisas podem logo passar, mesmo que façamos aniversário e tenhamos nossas festinhas.

Até que chega a adolescência. Temos nossas crises. Queremos fugir, correr por aí. Dormimos por muitas horas. Arranjamos novos amigos e perdemos alguns contatos de quando éramos pequenos. Surgem novas responsabilidades, dúvidas, medos e anseios. Principalmente às meninas, um grande marco é o aniversário de 15 anos. E aqui entra uma sábia afirmação de minha avó, que vivia dizendo: "Quando você menos esperar, dos 15 anos passará a ter 25". E eu, que pensava que isso era uma bobagem, de repente sinto que mesmo fazendo milhares de coisas, na verdade caí num sono profundo enquanto uma década se passou.

E assim se passam dez, 20, 50 anos. E isso vale para todos. E vamos vivendo, colocando planos em prática, tropeçando, mas seguindo o caminho. Construímos casas, famílias, projetos; destruímos coisas que fizemos, conceitos que criamos ou mesmo sonhos que realizamos, e assim começamos do zero em algumas situações. E o tempo continua a correr, até que cheguemos ao final de nossos dias. E mesmo assim ele segue passando para as próximas gerações, assim como passou para nossos ancestrais. E enquanto não se encontra uma maneira de viajar através desse verdadeiro enigma da física, restam lembranças a nós e aos outros, que se tornam algumas das únicas maneiras de retroceder e de alguma forma reviver o que já aconteceu.

Diante disso, pensemos. Existem coisas de grande valor nessa vida, muitas delas adquiridas. Mas o tempo com certeza é o bem mais precioso que temos e podemos dividir com alguém, pois este não se recupera. 

Assim, é preciso que saibamos administrar essa riqueza que temos em mãos. Vivamos, então. Aproveitemos os sorrisos e até mesmo as lágrimas. Cultivemos as pessoas que temos ao redor antes que o tempo delas termine. Que façamos tudo o que há para fazer, mas que também sejamos permissivos quando a vontade e a possibilidade for de simplesmente ouvir o tique-taque das horas. E que saibamos viver antes que toda a areia escorra em nossas ampulhetas.


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