Opinião

Alimentos com resíduos tóxicos

01 de Julho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Allgayer Osório
Engenheiro agrônomo, professor titular da UFPel, aposentado

Nas apresentações feitas pelos palestrantes convidados para a audiência pública havida na Câmara de Vereadores de Pelotas sobre o uso de defensivos na agricultura, foi duramente criticado o emprego de produtos químicos nas lavouras com o intuito de proteger as plantas dos ataques por insetos, doenças e invasoras. Esqueceram os palestrantes que, sem o uso de agroquímicos na proteção dos cultivos, torna-se impossível alimentar uma população mundial que já beira os sete bilhões de pessoas. Defensivos químicos são usados em todos os países onde a produção de alimentos é relevante pelo simples motivo de que, sem o seu emprego, uma lavoura sujeita ao ataque de predadores produzirá uma colheita exígua ou nula.

No Brasil, a quantidade de produtos químicos aplicados por área cultivada é menor do que em outros países, destacando-se na quantidade de agroquímicos por área plantada o Japão, país onde a longevidade das pessoas supera a do resto do mundo. O problema é que, intencionalmente ou não, a desinformação é grande, com os acusadores assustando as pessoas pela divulgação de malefícios que longe estão de realmente ocorrer.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão oficial de proteção da saúde da população, executa regularmente a análise de resíduos tóxicos em alimentos. Num dos últimos levantamentos publicados, envolvendo mais de quatro mil amostras coletadas num período estendido por cerca de 30 anos, em apenas 0,8% das amostras analisadas foram detectados resíduos “com potencial de risco”, ou seja, em 99,2% dos alimentos analisados os resíduos tóxicos estavam abaixo do LMR (limite máximo de resíduos permitidos, em que a quantidade destes é considerada “inofensiva ao organismo humano”).

O Brasil exporta alimentos para mais de 200 países, onde as normas de controle sanitários são extremamente exigentes. Carregassem os alimentos aqui produzidos resíduos tóxicos em quantidades potencialmente prejudiciais à saúde, certamente seriam embargados e devolvidos, o que não acontece.

Ninguém quer consumir produtos que contenham em sua composição elementos químicos nocivos. Mas se quisermos encontrar num supermercado alimentos que contenham componentes químicos adicionais, não será na gôndola dos hortifruti que eles estarão e sim nas prateleiras onde são oferecidos os alimentos processados, que contém os mais variados aditivos químicos, como os conservantes, os aromatizantes, os emulsificantes, os umectantes, os edulcorantes, os corantes, os texturizantes, os antioxidantes, os estabilizantes, os espessantes, os acidulantes e muitos outros. Para certificar-se disso basta ler as letras pequenas das embalagens que os contém.

Defensivos químicos são empregados nas lavouras apenas em casos de necessidade imperiosa, obedecendo orientação técnica e vigilância, como disciplina a lei do Receituário Agronômico. Nenhum “agrotóxico” pode ser vendido sem receita (tal como se faz com os antibióticos nas farmácias), prescrita por um profissional credenciado que se responsabiliza pela correta aplicação, respeitando na colheita o período necessário para a decomposição das substâncias químicas aspergidas, evitando que os produtos colhidos carreguem resíduos tóxicos. Podendo evitar o uso de defensivos químicos, a decisão do produtor será a de evitar fazê-lo, até porque são produtos que custam caro e demandam cuidados especiais no seu manejo.


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