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Alda Jaccottet, de professora a advogada

06 de Julho de 2019 - 08h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet
Advogado

Alda Maria de Moraes Jaccottet faleceu aos 91 de idade, em 30 de junho de 2019. Para a coletividade, professora, advogada, artista plástica, historiadora que por mais de 30 anos militou junto ao Instituto Histórico Geográfico de Pelotas, mulher de vanguarda, pois enquanto o sexo feminino recém se acostumava com o direito ao voto, ela já dirigia pelas estradas do Monte Bonito, onde adolesceu num local chamado "Alto da Cruz". Friso que nunca precisou levantar qualquer bandeira feminista ou coisa parecida; via com naturalidade a evolução pela qual a sociedade passava. Peço passagem para cumprir com um pedido feito por ela, publicar um texto, escrito por mim, mas que ainda em vida foi lido, e em grande parte aprovado por ela, haja vista algumas lacunas que tive de suprir.

Não haveria lido uma página sequer de Dostoievski, um dos seus autores predileto, não fosse a sua insistência de que todo aspirante ao curso de Direito possuía a obrigação de ler Crime e castigo. Não pense o leitor, muitos dos quais foram alunos, amigos e parentes da Dra. Alda, que permaneci apenas em Crime e castigo, junto de meu irmão, Pedro, fomos além, nos aventuramos pelos escritores russos, franceses, britânicos e lusos. Destes, a presenteei com uma obra de José Saramago, A viagem do elefante.

Ponderar a propósito da minha avó é sublinhar que se não fosse ela eu jamais teria escrito uma única frase capaz de ser publicada, nunca teria lido Saint-Exupéry e O Pequeno Príncipe, a mim, seria apenas o livro recheado de clichês. Não sei quantas vezes ela leu Saint-Exupéry, tenho dúvidas se ela sabia o livro de cor, haja vista que dominava outros idiomas, como o tedesco. Humildemente ela dizia tê-lo esquecido, mas quando conheceu a Europa articulou fluentemente com o patoá da Baviera, terra de onde seus antepassados da família Knopp vieram, pois me foi contado que discutiu com uma vendedora acerca de um chapéu. Sim, minha avó tinha quase que uma centena de chapéus, primava pela elegância, pela boa educação, a qual não transmitiu apenas aos seus filhos, seus netos, dentre os quais me incluo, foram instruídos e o resultado aí está.

Da sua estirpe resultaram dois médicos, um advogado, dois engenheiros e uma médica veterinária que hoje cursa Medicina e duas postulantes ao curso de Medicina. Quem não ficaria orgulhoso de tamanho sucesso, da própria maneira que seus filhos são profissionais de excelência.

Há, infelizmente, o outro lado da moeda. A tristeza que toma conta é tão grande quanto a envergadura intelectual que a minha avó possuía. Poucos sabem, mas ela exigiu ao seu pai, Ernesto de Moraes, para poder estudar. Imaginem, uma mulher que nos anos 40 decide sair do interior de Pelotas para vir estudar. Quanta ousadia. Pois bem, ela teve sucesso. Querida por seus alunos, nunca quis ascender à carreira universitária, dizia ela que era bem-aventurada como professora do Estado.

E sobre os bons momentos, foram incontáveis. Vitórias de Ayrton Senna, do Xavante e do Internacional, conversas "estranhas", falávamos sobre Sartre quando o assunto era filosofia e sobre E o vento levou quando o cinema vinha à baila, frise-se, seu filme predileto, livros e ao final sempre vinha a "provinha de redação". Ela não exigia uma escrita perfeita, sempre disse que temos que ser mais que perfeitos para que só assim cheguemos a 99% da perfeição, pois apenas gênios como Ápio Antunes e Aldyr Schlee eram capazes de tamanha proeza.

Em seus derradeiros anos de vida sobreveio a pesquisar a doutrina espírita. Era rígida, nunca disse se acreditava ou não, da mesma maneira que questionava a tudo e a todos. Nunca soube se ela era católica, luterana ou espírita, sua grandeza era tamanha que qualquer crença se apequenava diante dela. Não falo isto como neto, mas como quem conviveu com ela de 1984 até hoje.

Cá me despeço. Vó, vá em paz, encontre os seus entes queridos e faça de onde estiver a sua nova sala de aula. Cumpro aqui com o seu pedido e digo o que me pediste para citar ao falar da tua ida: Alda Maria de Moraes Jaccottet foi uma pessoa que apenas quis o bem, fez o bem e pregou o bem, o resto fica para quem aqui está.


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