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Alberto Nepomuceno: centenário de um compositor

26 de Novembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, compositor e escritor

"Não tem pátria um povo que não canta em sua língua!". A marcante frase é do pianista, compositor e regente brasileiro Alberto Nepomuceno (1864-1920), responsável por introduzir de uma forma consciente o ideal estético nacionalista na composição musical erudita brasileira, e cujo centenário completou-se neste ano. Embora certas temáticas nacionais já fossem alvo de compositores de uma geração anterior à sua, a exemplo de Carlos Gomes, o cearense Nepomuceno intensificou a abordagem de semelhantes temáticas, na medida em que deu um passo além e adotou a língua portuguesa como a principal dentro de suas composições, diferente de Carlos Gomes, que ainda optava em geral pelo italiano. Acrescente-se a isso o maior interesse do cearense pelas tradições locais: com efeito, há a hipótese, por exemplo, de que sua composição Batuque, dança de negros (1887), teria sido influenciada pelos maracatus e congos que se apresentavam em Fortaleza.

Para além da música, o interesse de Nepomuceno também se dirigiu às discussões intelectuais voltadas à política e sociologia de sua época, além dos estudos em filosofia e língua alemã com o professor Tobias Barreto, cujas obras eram estudadas na faculdade de Direito do Recife. A aproximação com tais estudos também o levaram, concomitantemente, a estreitar-se à literatura de sua época, ligando-a a composições musicais, o que resultou em músicas como Numa concha (1913), com poesia de Olavo Bilac; Ártemis (1898), com texto de Coelho Neto; O Garatuja (1904), ópera baseada na obra homônima de José de Alencar; e Coração triste (1899), com texto de Machado de Assis, qual conheceu pessoalmente durante suas participações no Clube Beethoven, durante a época em que morou no Rio de Janeiro, então capital do império.

Além da forte influência da literatura brasileira dentro de suas músicas voltadas ao canto, as formas instrumentais também influenciaram a produção do compositor, enriquecendo a totalidade de sua obra e levando-o, ao mesmo tempo, a ir além da tradição operística e sacra, em geral voltada à tradição italiana, predominante em sua época. Assim, dentro de seu repertório instrumental, podemos destacar as obras para piano Dança de negros, 1887; Scherzo fantástico, 1887; Prece, 1887; Mazurca nº 1, 1887; Berceuse, 1890; Sonata, 1893; Suíte antiga , 1893; Valse impromptu, 1893; Diálogo, 1894; Anelo, 1894; Galhofeira, 1894; e para orquestra as obras Marcha Fúnebre; Prière; Suíte da ópera Porangaba; Rhapsodie brésilienne (1887); Scherzo vivace; Suíte Antiga; Sinfonia em sol menor e Spimlied (1893), entre outras.

Cosmopolita e aluno em Berlim de Heinrich von Herzogenberg, tendo conhecido pessoalmente grandes compositores como Debussy, Mahler, Busoni e Grieg, possuiu, talvez em razão mesma desta convivência diversa, um estilo eclético com influências várias, quais ultrapassavam um ideal de "puro nacionalismo", por assim dizer, trazendo para dentro de sua obra (por exemplo na ópera Ártemis) claras influências tanto de Richard Wagner quanto de Antonín Dvorák, além dos já citados compositores anteriores. Semelhante fusão sincrética de um ousado nacionalismo com um profundo conhecimento da tradição clássica europeia, abriu as portas para compositores de gerações posteriores, como Villa Lobos, os quais viriam a expandir ainda mais tal fusão proposta por Alberto Nepomuceno.


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