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Afinal, Dilma ou Lula?

Em resumo: na avaliação palaciana, o diabo não é tão feio quanto parece

23 de Junho de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, professor universitário aposentado

Se os políticos sentem-se desconfortáveis com a maneira de governar da presidente Dilma Rousseff, é salutar que eles saibam de uma coisa: a recíproca é verdadeira. Ela não está nada à vontade com os políticos brasileiros. Até mesmo, e principalmente, com algumas alas mais radicais do PT. É isso mesmo. Dilma entende que é forçoso resgatar espaços institucionais, limitar a área de atuação política na máquina estatal e socorrer o Estado brasileiro da ocupação referida nos interesses, nem sempre oportunos, desse ou daquele aliado. E o custo do desconforto está contabilizado. O antídoto também: a popularidade presidencial, a expectativa de renovação do poder, gerada pelo favoritismo eleitoral, o manejo de emendas parlamentares, a disposição de espaços ainda disponíveis e o investimento no diálogo. Em resumo: na avaliação palaciana, o diabo não é tão feio quanto parece. Será?

Na semana que se foi, só para dar um exemplo, as avaliações das últimas pesquisas de opinião acenderam a luz amarela na cúpula petista. De março para cá, a aprovação do governo Rousseff despencou oito pontos. Isso é digno de nota? Creio que sim. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde que a presidente foi eleita em 2010. Dilma perdeu popularidade entre brasileiros e brasileiras "em todas as regiões do país, em todas as faixas de renda e em todas as faixas etárias". A causa é simples: o retorno da famigerada dobradinha inflação alta e crescimento econômico em baixa. O aumento do preço das mercadorias e das tarifas públicas: eis o gatilho para manifestações públicas de protesto.

O Brasil, caro leitor, perdeu o entusiasmo. Está pessimista. Não dá para alterar a realidade dos fatos. Basta uma simples visitinha ao supermercado da esquina. O desafio que se impõe é atravessar a tormenta inflacionária, recuperar mercados perdidos para a concorrência internacional, melhorar o PIB insignificante, combater a alta excessiva do dólar e controlar os gastos públicos - afinal, são apenas 39 ministérios! - que fragilizam a capacidade de investimento do Estado brasileiro, especialmente na infraestrutura indispensável ao desenvolvimento nacional.

A queda da popularidade presidencial, mais uma vez confirmada na majestática vaia por ocasião da abertura da Copa das Confederações no estádio Mané Garrincha, em Brasília, indica claramente uma desconfiança de uma fatia da população em relação aos rumos econômicos do país. O Brasil precisa retomar o caminho da austeridade, da sensatez e até mesmo da ousadia, para recuperar a competitividade.

E aqui lembro o título de um poema de conhecido poeta francês: Par délicatesse j´ai perdu ma vie. Ou seja: Por delicadeza eu perdi minha vida. São palavras de Rimbaud repetidas por todos aqueles que, delas, se valem para lamentar algo importante que perderam ou para reafirmar a disposição de não perder. Pois bem, na semana que se foi, como disse, um cartola petista lembrou Rimbaud para afirmar que, por elegância, o PT não perderá a vida, isto é, o poder. Nem agora. Nem a perder de vista.

Os partidos políticos, é óbvio, existem para alcançar o poder. O objeto da política é o poder. Uma vez lá, até se conservam empenhados em fazer o melhor por seus governados. No regime democrático, os políticos devem ao povo aquilo que conquistaram e somente o povo, pelo exercício do voto, poderá apeá-los do poder. Lula, par délicatesse, atropelou a campanha presidencial. A presidente assim o quis.

O ex-presidente, recuperado do câncer que o alcançou, desejava sair em caravana pelo território nacional. E Dilma detectara movimentos favoráveis ao lançamento da candidatura dele a sua vaga. Para eleger sua afilhada em 2010, Lula inventara que ela era uma gestora de mão cheia e que, com ela, dividira o comando do governo em seu segundo mandato presidencial. Balela! Dilma jamais foi uma gestora de mão cheia: a verdade é essa.

Penso, caro leitor, ser recomendável que a afilhada, sob pena de perder, para o padrinho, a sua condição de candidata ao Palácio do Planalto, ouça o clamor das ruas que, motivado por uma indignação social generalizada, exige mudanças, e dê especial atenção às pesquisas de opinião e à sábia advertência de um velho e conhecido poema camoniano:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Muda-se o ser, muda-se a confiança.

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades.


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