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Acordo Nuclear Iraniano: sinal vermelho

03 de Agosto de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cezar Roedel - consultor de Relações Internacionais - coluna@roedel.com.br

Conjuntura Internacional

A questão nuclear iraniana é central à geopolítica do Oriente Médio e, por que não, mundial, já que as incógnitas com o enriquecimento de urânio por parte do regime de Khamenei tiram o sono dos líderes ocidentais. As dúvidas aumentaram nas últimas eleições no país, que colocaram no poder Ebrahim Raisi, em substituição ao líder atual, Hassan Rouhani, que deixa o comando em 5 de agosto. Raisi, desde eleito, tem demonstrado o seu pessimismo com o possível acordo nuclear, envolvendo, no mínimo, seis potências ocidentais, pela liderança dos EUA, também conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA). O último diálogo do grupo, em Viena, restou frustrado. Ao menos desde 2015 o grupo de países (Alemanha, Reino Unido, França, Rússia, China e EUA) procura negociar. Em 2018 houve uma interrupção nas negociações, ordenada, então, pelo presidente Donald Trump. Nos últimos meses, o regime iraniano tem bloqueado o acesso de inspetores em suas plantas de enriquecimento de urânio, demonstrando a sua pouca vontade de cooperar na questão nuclear. Em suas últimas declarações, Raisi havia negado a possibilidade de um encontro com o atual presidente americano, Joe Biden. Todavia, quem manda no regime é o Aiatolá Ali Khamenei, "líder supremo" do país.

Khamenei
O que acendeu ainda mais o sinal vermelho no ocidente foram as recentes manifestações de Khamenei que culpam frontalmente os EUA pelos retrocessos nas negociações do acordo nuclear por terem agido "covarde e maliciosamente". A afirmação é um balde de água fria sobre os tímidos avanços na última rodada do JCPOA, em Viena. Logo, a manifestação coaduna com as últimas inserções de Raisi, que traziam pessimismo sobre qualquer avanço, demonstrando, portanto, a sintonia entre os líderes. A situação que se estabelece é delicada: de um lado, as potências ocidentais apontam a falta de vontade e cooperação iraniana no sentido de refrear o enriquecimento de urânio (que poderia ser usado militarmente), do outro o regime afirma não ter intenção em futuro uso militar (o que soa improvável, evidentemente). Somado a isso, desde o rompimento de Trump em 2018, o Irã vem desrespeitando todos os limites anteriores, promovendo ações internas que escapam de qualquer possibilidade de avaliação. Segundo o regime, seriam "ações reversíveis". Todavia, há muito pessimismo entre os líderes internacionais de que sejam reversíveis, visto que o regime não tem permitido o acesso das inspeções de rotina em suas plantas de enriquecimento pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Biden
O revés no acordo, motivado pelas últimas manifestações de Khamenei e a falta de cooperação do regime, está criando o maior desafio geopolítico no Oriente Médio à gestão Biden (que tem lançado as suas principais estratégias e preocupações no espaço geopolítico do sudeste asiático). Parece pouco provável, a essa altura das discussões, que Washington alivie as sanções ao regime iraniano, ainda mais com a declaração recente de Khamenei. O desafio será crescente a Biden se o regime iraniano abandonar o JCPOA, que era a última garantia de controle por parte dos EUA em sua relação com Teerã. A reação de Biden às manifestações de Khamenei será um bom indício sobre o futuro da questão nuclear iraniana.


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