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Achávamos que ele era imortal

07 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Camila Faraco, jornalista

O pelotense José Carlos Morais, Zé, conhecido nesses pampas como Pinto, tinha uma daquelas histórias de superação que inspiram enredos de livros e filmes. Um infortúnio que poderia desgraçar uma vida se tornou força matriz para transformar a sua e, generosamente, a de outras tantas pessoas. Na década de 1970, recém-formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e no auge da juventude, Zé foi baleado em um assalto, enquanto pegava um táxi no Rio de Janeiro, onde fazia residência clínica. Ninguém precisou dizer o que ele próprio percebeu, caído no chão: “estou paraplégico”.

A trágica experiência e a recuperação foram contadas no livro “Roda Vida _ memórias de um cadeirante”, de 2017, com lançamento em Pelotas, no Mercado Público. Foi o momento de reunir familiares, admiradores, contemporâneos da época de golfe do Clube Campestre e os do Parque Tênis Clube, e amigos dos pais de Zé, Alda e Alcides, goleiro do Esporte Clube Pelotas e da Seleção Gaúcha, nos anos 1940.

O jovem resiliente e de espírito elevado se manteve firme e catalisou as adversidades em potencial para uma nova perspectiva. Tornou-se referência mundial em Hemopatologia, pesquisador e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No meio acadêmico, era reconhecido pelo brilhantismo profissional, caráter ético, habilidade no trato e pela modéstia. Teve um casamento feliz com uma carioca de família pelotense, Martha Campos Abreu, e tiveram dois filhos, Joana e Rafael.

Com histórico atlético, logicamente o esporte teve papel decisivo para sua reabilitação. Começou com o basquete em cadeiras de rodas, chegando à seleção paralímpica. Em uma competição em Londres, em 1985, teve o primeiro contato com o tênis em cadeiras de rodas. Obstinado, onze anos depois foi o primeiro brasileiro a representar o país na modalidade, nos Jogos Paralímpicos de Atlanta. Virou hexacampeão brasileiro, um vencedor, mas não queria ser o único no pódio.

No final da década de 1980, fundou com amigos o Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro (CVI-Rio), voltado à autonomia de pessoas com deficiência. E em 2009 criou em Niterói o Cadeiras na Quadra, projeto social que estimulou dezenas a encontrarem o poder transformador do esporte. Em texto deste ano, Zé destacou narrativas das vitórias individuais dos milhares de participantes do projeto: “a volta de um sorriso de uma criança, a emoção da mãe agradecida, os novos amigos agregados e o crescimento da autoestima são testemunhos que nos mobilizam. E esqueçam de vez essa história de super-heróis, são simplesmente pessoas em busca do prazer, do saque perfeito e do ponto impossível”.

Neste ano de pandemia, ele estava em alerta e disciplinado. Mas na noite de 3 de julho, ao 73 anos, o coração grande de Zé pediu para parar. E descansou. Difícil escrever sobre quem parte assim, sem aviso. Como disse o ex-tenista Gustavo Kuerten, amigo pessoal de Zé e parceiro em projetos sociais, nos deixa “um desbravador, pioneiro, visionário, encantador, alma divina que seguirá nós iluminando e inspirando, sempre em prol da inclusão e acessibilidade”. Homenagens assim ajudam a reconfortar e trazem a dimensão do legado de um grande homem.


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