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Acervos da UFPel: o manancial de documentação do CEIHE

25 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -
Jorge, o primeiro da esquerda para a direita, 
sentado na inauguração do Grande Hotel, em 1925

Jorge, o primeiro da esquerda para a direita, sentado na inauguração do Grande Hotel, em 1925

Letra de Walkyria identificando Jorge e sua mãe em Herval, 
no ano de 1904

Letra de Walkyria identificando Jorge e sua mãe em Herval, no ano de 1904

Jorge e Walkyria no álbum preservado pelo CEIHE-UFPel

Jorge e Walkyria no álbum preservado pelo CEIHE-UFPel

Por Luís Rubira - Professor do Departamento de Filosofia da UFPel

Nos últimos meses recebi muitos retornos (acerca dos artigos que venho publicando) por parte dos leitores do Diário Popular. Tive a oportunidade de conhecer familiares do engenheiro-arquiteto Stanislau Szafarsky, que projetou o Theatro Guarany; de saber que dona Maria Leocádia, aos 86 anos, ficou emocionada e feliz com o que escrevi sobre sua irmã, a historiadora Heloisa Assumpção; de descobrir que algumas cartas em árabe do escritor Khalil Gibran encontram-se em mãos de um bisneto de José Mereb, que em mim depositou a confiança para publicá-las. Dentre tantas interlocuções, que por si só mereceriam vários artigos, gostaria hoje de explorar uma, a qual teve início quando tratei do livro “O sentido da evolução”, de Jorge Salis Goulart.

Já há alguns anos conheço os pesquisadores Eduardo Arriada e Elomar Tambara. Do acervo pessoal destes dois professores da UFPel saíram muitos documentos e imagens que compõem os três volumes do Almanaque do Bicentenário de Pelotas (Santa Maria: Pró-Cultura-RS/Gráfica e Editora Pallotti [2012-2014]). Sabia também, há tempos, que uma parte substancial do acervo documental que durante décadas eles reuniram, a partir de expressivos investimentos monetários próprios, fora doado para a UFPel. Logo que o acervo foi transferido para o segundo andar do prédio anexo à antiga Escola de Agronomia Eliseu Maciel (hoje Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo), fui convidado a visitá-lo. Quando tentei fazê-lo, soube que o prédio estava interditado para reformas.

Depois disso, o tempo transcorreu, até que semanas atrás recebi um telefonema de Elomar convidando-me para conhecer parte do acervo, hoje instalado no antigo Campus II da Universidade Católica, atualmente pertencente à UFPel.

Descobri, então, que no período da pandemia o professor Elomar têm dedicado suas manhãs, de forma solitária e admirável, a organizar as três exíguas salas abarrotadas de todos os tipos de fontes do acervo. Seguindo todos os protocolos de segurança (uso de máscara e de álcool gel, distanciamento social, etc.), ele recebeu-me e comigo percorreu as prateleiras das estantes, mostrando parte da riqueza do Centro de Estudos e Investigações em História da Educação (CEIHE). Digo “parte”, pois na ocasião soube que a fatia mais expressiva deste acervo da UFPel ainda se encontra no prédio anexo à antiga Escola de Agronomia Eliseu Maciel, agora no andar térreo, coberta com lonas, à espera de um novo local que o abrigue.

Antes de falar do CEIHE gostaria, no entanto, de dizer o que mais me causou impacto como pesquisador. Elomar Tambara, que acompanha os artigos nos quais tenho tratado de temas relativamente pouco explorados sobre a cidade, mostrou-me logo dois tipos de fontes: o primeiro, uma raríssima coleção de revistas sobre cinema produzida em Pelotas na década de 1950 (sobre as quais tratarei em artigo específico); o segundo, e mais surpreendente para mim como investigador: o álbum de família de Jorge Salis Goulart, preservado e organizado durante anos por Walkyria Neves Goulart, companheira do escritor prematuramente falecido. Por meio deste álbum tive acesso a dados do percurso biográfico dos dois que jamais havia alcançado em anos de pesquisa. Dentre eles, a descoberta de onde ficava a residência de Jorge e Walkyria após seu casamento em 1923, casa que até hoje se encontra preservada a algumas quadras da Faculdade de Direito de Pelotas.

Ao perguntar para o professor Eduardo Arriada o que ele destacaria no acervo, obtive a seguinte resposta, via email: “livros didáticos (muitos do século XIX), outros editados pelas editoras de Pelotas, impressos estudantis, revistas pedagógicas (século XIX e XX); mais de 3.000 manuscritos sobre educação (alguns do século XVIII, como Aulas Régias do período pombalino), muito material sobre Pelotas, diversas revistas como a Ilustração Pelotense, A Miscelânea, Sul Ilustrado, Ponto de Vista, Cine Revista, Extremo Sul, Pelotas em Revista, Revista Odisseia, Vida Pelotense, Vitrina, Rio Grande do Sul: revista ilustrada (...) diversas coleções completas de antigos almanaques, a coleção do DM Cultura e Diário Popular Cultura, ZH Cultura, Cadernos de Sábado do Correio do Povo, Letras & Livros do Correio do Povo, essas séries muitas completas; Revista do Ensino (temos quase completa a coleção), uma plêiade de livros didáticos (de história, geografia, matemática, ciências, gramáticas, ensino de francês, inglês, alemão, latim)”. E isto, disse-me, é somente uma mostra.

Todo pesquisador conhece a importância das fontes para a compreensão dos processos históricos. Bibliotecas e Centros de Documentação são, ademais, geradores de empregos e de riquezas econômicas. Fernando Henrique Cardoso veio, um dia, pesquisar documentos que somente havia em Pelotas e na Biblioteca Pública Pelotense. Milhares de pesquisadores deslocam-se todo o ano para países em busca de acervos, presentes, por exemplo, na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca do Congresso, em Washington. Próximo de nós, a PUCRS construiu um prédio com diversos andares para comportar a Biblioteca da Universidade e vários de seus acervos. O mesmo foi feito pela Unisinos, que possui um Acervo de Obras Raras e Especiais que em nada deve às melhores instituições estrangeiras. Muitas salas e andares de tais prédios encontram-se ainda vazias, à espera de documentação, pois tais universidades sabem a importância da recepção e da preservação dos documentos não somente pelo valor que eles têm por si mesmos, mas também porque são capazes de atrair tais estudiosos em busca de informações. É de se esperar que, um dia, a UFPel consiga reunir em um só lugar tanto o conjunto de suas bibliotecas quanto de seus acervos. Até lá, o que podemos fazer é usufruir destes ricos núcleos que já possuímos, dentre os quais o CEIHE, formado pela visão de vanguarda e pela generosidade destes dois professores de nossa universidade.


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