Artigo

A virtude e o vício do futebol

02 de Dezembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Celina Brod, mestre e doutoranda em Filosofia Política Ética pela UFPel

Entendo pouco, ou quase nada de futebol. Já desisti, por exemplo, de compreender quando há impedimento. Toda vez que me explicam, finjo compreensão. Entendo a teoria, mas na prática jamais consegui identificar um atacante impedido. Meu conhecimento limita-se ao número de jogadores, uniforme do juiz, um gol contra e os minutos de duração. Esta última informação é aquela que mais me interessa. Com frequência pergunto: quanto tempo falta para acabar o jogo? Dependendo da resposta eu calculo o que farei, até conseguir de volta a TV para o lazer da procrastinação.

No entanto, a tela verde com 22 atletas correndo atrás de uma bola, me traz uma sensação de adequação no mundo. Eu explico. Toda essa atmosfera faz parte da minha história de vida. Cresci observando estas cores, sons e humores. Lembro, vividamente, de escutar meu vô Ary gritando golo! Não, não era gol, era golo. Com a última vogal sendo estendida até a voz definhar. Era pela ênfase na letra "O" que eu sabia que o Internacional estava jogando. Um grito repentino que interrompia a conversa de beira de cama que minha vó tinha comigo antes de selar o dia.

Aos 8 anos tricotei uma manta, nas cores azul e amarela, para que no inverno meu pai pudesse ir aos jogos do Lobo. Hoje, para o seu azar, sou casada com um torcedor fiel Xavante. Nos finais de semana da infância, as vozes dos narradores eram como trilhas sonoras das tardes de domingo. A rigidez dos fatos e os problemas difíceis eram abandonados. Tudo estava no lugar. Uma verdadeira pausa na vida da mente. Não interessa as picuinhas do mundo, a sala é tomada de um silêncio tensionado que dura mais de 90 minutos.

Na verdade, o futebol reúne muitas das peculiaridades humanas: paixão; raciocínio; cooperação; competição; coordenação e talento. O futebol também comporta os valores democráticos: a submissão do império das regras, o pluralismo, a divergência, a liberdade - todos que estão no estádio usufruem da livre troca e ação consentida -, a tolerância e a representatividade. Já o jogo em si, a existência de tudo que acontece ali, é o fim comum a todos. Quando duas pessoas torcem para times opostos e mantém o respeito, testemunhamos o ápice da civilidade: o registro da superação do tribalismo.

O futebol, portanto, pode pairar acima das egocêntricas diferenças, porém, quando tomado como simbolismo sacro e causa incondicional pode transformar-se em fanatismo. A violência dos Hooligans é a manifestação da maldição dos homens de criarem para si territórios e fins que se confundem com a sua própria existência. Sou capaz de tudo em nome do meu time; eu SOU o meu time. Nasce aí o perigo, ninguém conhece os limites de um amor absolutista.

David Hume escreveu que "a corrupção do melhor gera o pior", uma mensagem que serve tanto para a política quanto para o futebol, por vezes, as duas coisas simultaneamente. Não demorou para que alguns fizessem da morte de Maradona ataques preconceituosos ou proselitismo político. Não demorou para que alguns reduzissem Pelé a um rival do humanismo e Diego, que possui até mesmo uma igreja e seita, um redentor dos oprimidos. Pelo visto, esses entendem menos de futebol do que eu. Eles ignoram que no campo, o argentino e o brasileiro foram verdadeiras lendas, na vida privada, apenas humanos.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados