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A travessura necessária

Você já foi a Bahia? Não! Então vá... Vá e desfrute do encantamento que só a “Boa Terra” tem

20 de Maio de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Edar da Silva Añaña, professor

Você já foi a Bahia? Não! Então vá... Vá e desfrute do encantamento que só a “Boa Terra” tem: beba um coco na Praia do Farol, contemple as igrejas do Pelourinho, coma uma muqueca em Itapuã e descanse na escadaria do Senhor do Bonfim... mas por favor não esqueça de visitar a obra monumental de Irmã Dulce, um complexo hospitalar de dar inveja a muita gente.

A obra de Irmã Dulce encanta pela imponência e pelo simbolismo. Quase não dá para acreditar que aquilo tudo tenha começado com um galinheiro. Na verdade começou com um galinheiro e uma atitude atrevida, de uma freira franzina, que teve o topete de transformar em canja as galinhas da Superiora, para alimentar os enfermos que ali se abrigavam. Uma ousadia que na época poderia ter-lhe custado um belo castigo (até mesmo a expulsão) por agir à revelia da ordem, mas que foi decisiva para que a sua organização tomasse o rumo que tomou.

Organizações são estruturas vivas, que precisam ser desafiadas para que avancem, pois do contrário tendem a permanecer inertes na sua zona de conforto. E para romper a inércia é preciso que o líder tenha objetivos bem definidos e uma dose mínima de coragem e ousadia para bancar o risco de ser reprovado por seus pares ou pelo “sistema”.

Transformar organizações é tarefa para líderes que tenham preparo técnico, intuição e, sobretudo, atitude. Ao líder transformador não basta apenas ter consciência social ou engajamento político: é preciso ter habilidade para vencer as travas do sistema e coragem para lidar com a recriminação dos seus pares. O líder precisa ter atitude, saber claramente o que é certo e o que é errado e aonde quer chegar; do contrário será apenas um sonhador.

A sociedade moderna tem sido pródiga em criar leis, normas e controles com vistas a prevenir o mal feito, e com isto torna cada vez mais difícil o surgimento de líderes verdadeiramente transformadores. Nossas empresas e organizações governamentais, infelizmente, ressentem-se cada vez mais de líderes transformadores, de gestores que além das boas intenções também tenham um mínimo de coragem para agir com independência e cometer pequenas “transgressões”, dentro do espaço que a Lei lhes possibilita, em nome das boas causas.

A imposição de um padrão “politicamente correto” e o medo da recriminação pelos pares têm transformado alguns gestores políticos e organizacionais em líderes inertes, sem atitude. Líderes engajados em causas nobres mas que, para não errar, evitam tomar certas decisões. Líderes que pecam pelo excesso de prudência, e que por temor à lei ou à crítica do seu grupo de apoiadores tornam-se hesitantes e contemplativos, incapazes de decidir por conta própria. Líderes bem intencionados, que até reconhecem a imprescindibilidade da sopa para o futuro dos descendentes, mas que deixam de cozê-la por não terem atitude suficiente para sacrificar a penosa no momento oportuno, como fez a corajosa Irmã Dulce no vigor da juventude. Qualquer semelhança com líderes conhecidos, vivos ou mortos, é apenas coincidência.


Comentários

  • Manoel Luiz Brenner de Moraes - 22/05/2013

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