Opinião

A tragédia balzaquiana de Paulo Guedes e dos brasileiros

14 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter
Professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel | rittergaucho@gmail.com

Foi lendo uma minibiografia sobre Honoré de Balzac, escrita por Paulo Nónai, na apresentação do escritor em “A comédia humana”, que passei a me interessar e a estudar mais sobre finanças e economia. Ao descobrir como Balzac, um gênio da literatura, passou a vida apanhando financeiramente, questionei-me: “se o Balzac, que era o Balzac, não conseguiu sair do sofrimento financeiro, mesmo ganhando dinheiro e sendo famoso, quem dirá eu, um mero escritorzinho de araque, mal e porcamente remunerado, em um país como o Brasil?”. Então, decidi parar de levar ferro de tudo que é lugar: lojas, bancos, supermercados, corretoras, governo, etc. Foi naquele momento, lendo Balzac, que optei por deixar de ser um analfabeto financeiro.

Ainda estou me alfabetizando, mas ao contrário da maioria, lembro de 2018. Recordo-me claramente de um candidato, chamado Jair Bolsonaro, respondendo às perguntas mais cabeludas sobre Economia e falando sempre algo como: “Isso daí eu não sei. Essa questão daí você vai ter que perguntar lá pro Paulo Guedes, que vai ser o ministro da Economia”. O Guedes ia lá, como um guru mágico, um sábio milenar, e prometia mundos e fundos. Tudo era fácil. Sair da crise, fazer o Brasil crescer, reduzir o desemprego e inflação, tudo era de uma simplicidade boçal. Mais da metade do país se encantou e caiu na lorota da Zélia Cardoso do século XXI, achando que a vida se tornaria mais alegre a partir de primeiro de janeiro de 2019. Ledo engano.

Estamos em maio de 2022 e a cada mês o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a taxa de inflação do país, bate novo recorde, no histórico desde o início do plano Real. Em abril, por exemplo, no acumulado de 12 meses, a taxa chegou a 12,13%, repetindo a alta recorde do mês anterior. Para completar, a taxa de juros também sobe (na tentativa de conter a inflação) e o tiro só sai pela culatra: o brasileiro não tem dinheiro para sobreviver e, se tirar empréstimo, paga uma taxa de juros elevadíssima. A fórmula perfeita para ferrar de vez as finanças dos brasileiros. Por isso a tragédia de Guedes, principal responsável pela Economia do país, é a mesma do brasileiro: antiga e balzaquiana. O que antes já era ruim, agora ficou pior, pois os escassos reajustes salariais, seja do setor público ou privado, não acompanham nem de perto os sucessíveis e infindáveis aumentos dos preços. É como se o salário fosse o Coiote e a inflação e os juros o Papa-léguas, sempre inalcançável.

Ok, teve a pandemia e a guerra na Ucrânia ainda está rolando. Mas as promessas de 2018, que diziam que o brasileiro iria tomar banho de champanhe, não aconteceram. Só das promessas que constam no plano de governo, podem ser facilmente destacadas algumas: o superávit de 2020 não rolou, capitalização da previdência também não, unificação dos tributos federais, idem, e aquela promessa de campanha de 2018, de fazer alíquota única de 20% no Imposto de Renda com isenção até cinco salários mínimos, ficou só no sonho dos brasileiros. Eu continuo pagando exatamente os mesmos impostos que pagava antes e, mesmo com a redução do IPI, nenhum preço baixou, pois quem fornece os produtos, obviamente, não repassa essa baixa ao consumidor para tentar recuperar as perdas da inflação.

Em síntese, o guru Paulo Guedes não se mostrou muito melhor do que o Mestre dos Magos, da Caverna do Dragão. Sempre fala, fala e fala, mas nunca aponta a saída. Foram quatro anos para tentar, ao menos, não piorar as coisas. Fracassou. As coisas pioraram, e muito. E haja estudo sobre finanças para não entrar no vermelho em um país desses. Aliás, eis a dicotomia: estudar finanças, não para enriquecer, mas para não empobrecer mais ainda. Uma (trágica) comédia humana verde amarela.


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