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A soja brasileira não está associada ao desmatamento. Será?

16 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marcelo Dutra da Silva, ecólogo - dutradasilva@terra.com.br

O presidente Macron disse que "continuar a depender da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia". Em um vídeo publicado em sua conta oficial no Twitter (12/01) o presidente francês falou em "não depender mais da soja brasileira e produzir o grão na Europa". As reações foram imediatas. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento se pronunciou em nota e defendeu que a soja brasileira "não exporta desmatamento". Para o ministério, a fala de Macron demonstra desconhecimento sobre os nossos métodos de produção. Da mesma maneira, o vice-presidente Hamilton Mourão, que chefia o Conselho Nacional da Amazônia, afirmou que Macron externou interesses protecionistas ao criticar a soja brasileira, que a presença de soja na Amazônia "é ínfima" (nem tanto), que a nossa capacidade de produção é "imbatível" e que "a produção de soja no Brasil é feita no cerrado e no sul do país". O Ministério também destacou no comunicado, que a legislação ambiental brasileira é uma das mais "rigorosas" do mundo", que toda a produção nacional tem controle de origem e que o Brasil "detém domínio tecnológico para dobrar a produção com sustentabilidade, seja em áreas já utilizadas, seja recuperando pastagens degradadas, sem a necessidade de novas áreas" (e este é o ponto). As declarações do presidente Macron repercutiram de forma negativa, claro. O setor alega que o Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo, responsável por abastecer mais de 50 países, com grão, farelo e óleo. Mas estaria Macron, totalmente errado? Estudo liderado pelos colegas Raoni Rajão e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, autores do artigo The rotten apples of Brazil's agribusiness (Maçãs podres do agronegócio brasileiro), publicado na Science, em julho do ano passado, mostrou que 20% da soja brasileira produzida na Amazônia e no Cerrado, exportada para a União Europeia, podem ter saído de áreas de desmatamento ilegal. Para exemplificar, o Mato Grosso, que desponta na liderança nacional da produção soja, onde o plantio ocupa dez milhões de hectares (maior que Portugal), também se destaca em outro ranking: do desmatamento da floresta Amazônica (só perde para o Pará). Medições do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) no programa Prodes, que verificou o desmatamento anual de julho de 2018 a agosto de 2019, mostraram aumento de 25% nas taxas de desmatamento em relação ao período anterior. O corte foi reconhecido como clandestino em 85% das áreas e mais da metade do desmatamento (56%) aconteceu em grandes propriedades rurais. Infelizmente, os dados do INPE são frequentemente contestados, na tentativa de não reconhecer a estreita relação entre soja e o desaparecimento da floresta. Mas ela existe! A conversão é indireta. A soja aparece em substituição as pastagens, em áreas desmatadas para criação de gado e que se tornaram menos rentáveis. Então, na medida que a soja avança e a pecuária se desloca, novas fronteiras são abertas, excluindo a floresta.


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