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A sobrevida de Theresa May

05 de Abril de 2019 - 08h30 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado - professor e jornalista

Na última quarta-feira, o Parlamento Britânico decidiu que o Brexit - a saída do Reino Unido da União Europeia - não pode ocorrer sem um acordo entre os britânicos e o bloco europeu.

O problema central é que a primeira-ministra britânica, Theresa May, já submeteu três propostas de acordo de saída ao Parlamento, e as três foram sumariamente rejeitadas.

Ou seja, o Parlamento não aceita as propostas de May para a saída do bloco europeu. Ao mesmo tempo, não permite que o Reino Unido deixe a UE sem um acordo.

Nos últimos meses, May negociou com os representantes dos outros 27 países-membros da UE. O bloco europeu aprovou, de forma unânime, o acordo que oficializaria a saída do Reino Unido da União Europeia, após 45 anos de permanência no bloco. Os desejos irreconciliáveis da própria população britânica, no entanto, evitaram a aprovação.

Em junho de 2016, os cidadãos do Reino Unido - da Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte - votaram pela saída da União Europeia. O total foi de 51,9% pela saída do bloco e 48,1% pela permanência.
O processo foi chamado de Brexit, ou Saída Britânica. Ao todo, mais de 33 milhões foram às urnas. Por meses, houve intensa campanha eleitoral.

Os defensores da permanência alegaram que o Reino Unido, com uma população de mais de 65 milhões e com o 5º maior Produto Interno Bruto do mundo, jamais poderia se apartar de um bloco com 28 países, mais de 500 milhões de habitantes e um PIB superior a 17 trilhões de dólares.

Ao sair do bloco, o Reino Unido pagaria altas tarifas para exportar para os países do grupo, e perderia negócios e oportunidades de bilhões de libras.

Mas falaram mais alto os argumentos dos defensores do Brexit.

Diziam que o Reino Unido precisava ser independente uma vez mais, pois havia perdido sua capacidade de agir em um sem-número de áreas, que agora eram controladas pela UE. Na imigração, eram forçados a receber refugiados de conflitos mundo afora, principalmente da Síria. Na economia, eram submetidos às metas econômicas do bloco, ignorando os interesses nacionais ou os submetendo às vontades de quase 30 países.

Em março de 2017, May enviou uma carta formal à UE, invocando o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, uma espécie de Constituição do bloco. O processo de saída é tão complexo e inédito que o artigo dá dois anos para as negociações. Durante esse prazo máximo, que venceu no final de março, Reino Unido e UE deveriam entrar em um acordo.

O Reino Unido pretende manter os direitos dos cidadãos europeus que já vivem no país. Além disso, ambiciona criar uma nova relação bilateral com a UE com o objetivo de derrubar cotas e tarifas. Por fim, há o ponto mais controverso, que é a situação da Irlanda do Norte.

A Irlanda do Norte faz fronteira com a Irlanda. Quando ocorrer o Brexit, a Irlanda permanecerá na UE e a Irlanda do Norte estará fora. Para evitar que haja uma fronteira rígida entre as Irlandas, o plano de May propõe que a Irlanda do Norte permaneça sob o controle alfandegário europeu.

Nos últimos meses, a tarefa mais árdua para May tem sido obter a aprovação de seu próprio Parlamento, já que as críticas à primeira-ministra e ao plano que ela formulou são a cada dia mais intensas.

O plano de saída já foi derrotado três vezes. A própria May já sobreviveu a várias tentativas de retirá-la do cargo de primeira-ministra.

A causa de tudo isso é simples: cerca de metade dos britânicos quer que o Reino Unido saia da União Europeia imediatamente, e sem um acordo para futura relação. Outra metade já se arrependeu dos resultados do referendo, e gostaria que o país ficasse no bloco europeu.

Nas últimas semanas, May conseguiu uma extensão do prazo para a negociação de um acordo.
A nova data será em exatamente uma semana: 12/4. A primeira-ministra, portanto, tem mais uma semana para negociar o acordo que a cada dia parece ser mais improvável.


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