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A Selic e os juros

10 de Agosto de 2020 - 08h19 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Ezequiel Megiato - coordenador do Escritório de Desenvolvimento Regional - EDR/UCPel

Na última semana, seguindo o que já era de se esperar, o Comitê de Política Monetária (Copom), anunciou mais uma redução da taxa referencial de juros, a Selic, que agora é de 2% ao ano. É a menor taxa já registrada. Diga-se de passagem, todos os últimos cortes já colocavam a taxa nos seus recordes mínimos e, ao que tudo indica, é possível esperar um novo recorde ainda esse ano.

O debate em torno da taxa de juros referencial já foi mais fervoroso do que é hoje, especialmente pelo efeito da Selic na dívida pública, que foi alavancada pelas altas taxas do passado. Não é preciso boa memória para se lembrar das discussões em torno dos “juros da dívida” ou, então, da afirmação de que não é possível que o país cresça com elevada taxa de juros, uma vez que essa, estando elevada, serviria de incentivo ao rentismo, isto é, a ganhos a partir de aplicação financeira do que empreendedorismo e produção. Bem, e isso de fato é verdadeiro. Juros altos desestimulam a economia real, e são lembrados como sendo o remédio amargo para a inflação. O contrário é verdadeiro? Juros baixos incentivam a economia e alimentam a inflação?

A resposta para as perguntas acima, evidentemente, passa por uma leitura ampla do momento que estamos vivendo, que não são tempos calmos e de previsibilidade e isso, a falta de previsibilidade afeta a economia em cheio. Fossem tempos normais, certamente a economia estaria mais aquecida, a inflação seria maior quanto menor fosse nossa capacidade produtiva ou produtividade e sim, o país cresceria. Mas, como não estamos em tempos normais, essa ação de política monetária não tem, ou parece não ter efeito prático na vida das pessoas, essa é a percepção geral.

Certo é, no entanto, que sim, há efeitos. Eles podem ser pequenos, mas são reais. O primeiro efeito, sem dúvida, é sobre a dívida pública. A estimativa mais recente, afirma que o Tesouro deixará de pagar mais de R$ 500 bilhões de reais em juros da dívida nos próximos dois anos, apenas em função da derrubada dos juros. Outro efeito, deverá ser cultural, uma vez que a parcela da população que possui renda excedente, não vislumbrando mais na poupança, nos CDBs ou nos títulos públicos oportunidade de ganhos financeiros, agora, precisarão arriscar em capital produtivo ou mercado de capitais. E isso, certamente é positivo para a economia como um todo. Há também, ainda em menor grau, efeito sobre o crédito, uma vez que estão acontecendo reduções nos juros bancários, tanto para pessoa física quanto jurídica, e isso incentiva o consumo e o investimento produtivo.

Novamente, friso que é muito possível que os juros sigam caindo, e isso será bom para todos. A economia brasileira é extremamente necessitada do crédito, uma vez que possuímos uma renda per capita bastante baixa. Costumo pensar que a aposta no consumo como alavanca para o crescimento econômico não é o ideal, mas, nas circunstâncias que estamos, com a economia em queda e inflação em baixa, poderia ser mais um dos fatores atenuantes da crise, que preservaria emprego e geraria renda.


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