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A prática do greenwashing chegou na administração pública

22 de Outubro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Marcelo Dutra da Silva - ecólogo
dutradasilva@terra.com.br

O interesse social pela causa ambiental e a importância que as questões de meio ambiente e responsabilidade social estão assumindo na sociedade, especialmente na economia e no mercado, tem levado empresas e outras organizações, que disputam a atenção dos clientes, a uma verdadeira corrida pela boa imagem e ações de boas práticas que nem sempre condizem com a realidade. Em outras palavras, tentam mostrar que seguem práticas ambientais corretas e sustentáveis, que respeitam o meio ambiente e se preocupam com o social, mas não passa de maquiagem, de um jogo de aparências, de uma tentativa de parecer o que realmente não são. É o greenwashing, que literalmente significa lavagem verde.

O greenwashing ocorre quando a empresa declara que o seu produto é ambientalmente correto, porém não tem nada que comprove isso, nenhuma evidência e nem certificação; quando a empresa declara informações amplas e vagas, que certamente não serão bem compreendidas pelo consumidor; quando as organizações fazem uso de rótulos que remetem a ideia de certificações ambientais, mas foram criados pela própria organização; quando declaram práticas ambientais verdadeiras, como se fosse um diferencial, mas que no fundo são obrigações do fabricante, impostas por lei; quando tentam distrair os clientes quanto aos riscos e malefícios dos produtos e/ou riscos em potencial.

Infelizmente, a prática de greenwashing tornou-se bastante comum e pode ser percebida com facilidade. A opção por fraudar a verdade ou distorcer as informações pode estar relacionada ao custo de adequação às normas ambientais e/ou a falta de recursos técnicos da organização para atender a legislação. Em um mercado competitivo a imagem é tudo e a prática vem ganhando adeptos, inclusive na administração pública, por meio de iniciativas superficiais e passageiras. Tentativas de convencer a população de que algo está sendo feito pelo meio ambiente e bem-estar social, que o governo tem preocupações com essas causas, que houve uma mudança de rumo e de que vamos caminhar numa direção diferente, mas nada disso é real. Não existe lastro em políticas públicas que permitam consolidar as ações e tudo é feito pensando em como tirar o máximo capital político de uma foto.

A lavagem verde é engenhosa e políticos tem tirado um bom proveito da jogada de aparências, em que se mostram gestores preocupados com o futuro do planeta. Na foto, brilham plantando mudas de árvores em canteiros, mas na realidade não oferecem água segura para a população, que está contaminada com agrotóxicos, podendo faltar em tempos de forte estiagem; em cidades que muitas vezes alagam quando chove, que não tratam o esgoto e nem mesmo têm um plano municipal de saneamento básico; onde a fiscalização e o controle são inócuos frente às ocupações dos ambientes de margem e áreas de preservação permanentes; que autorizam e/ou licenciam empreendimentos sem considerar os remanescentes naturais e os serviços prestados pela natureza; que não avaliam as consequências de não adotar práticas sustentáveis e políticas públicas reais de gestão do meio ambiente e conservação dos recursos e limites para o uso do espaço.

Estamos sendo enganados todos os dias, com frases lindas, sorrisos e fotos. Mas não há debate e não há demonstração de resultados. Não se discute planejamento e nem quais seriam as prioridades. Se alguém procurar, não vai encontrar nada que revele as vulnerabilidades do espaço, as zonas de maior risco e/ou qualquer ação na tentativa de coibir ocupações indevidas e o crescimento urbano desordenado. Conselhos não são respeitados, a opinião técnica é bem-vinda, apenas, quando favorece e críticas são rebatidas como "coisas da oposição", que nem sei se ainda existe. O retrocesso segue e qualquer semelhança é mera coincidência.


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