Artigo

A plenitude do presente

12 de Fevereiro de 2019 - 09h02 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Manoel Jesus - educador - manoeljss21@gmail.com

No final de semana, dois textos chamaram a atenção: Lya Luft, com o seu Brumas de Minas, e o professor Osmar Schaefer, com Cuidados pós-câncer. O primeiro destaca a necessidade de que, mesmo em tempo de notícias tão negativas, não se perca a esperança no ser humano; o segundo, o quanto esta mesma esperança dá sentido em buscar a continuidade da própria vida.

Lya aborda as perdas no crime ambiental em Brumadinho (poderia se falar da morte dos jovens na concentração do Flamengo), que as pessoas não podem esquecer - especialmente as autoridades - para que as tragédias não se repitam. Mais ainda: não se aceite como natural a espetacularização da notícia em que o trágico não nos diz respeito, mas satisfaz uma necessidade de indignação virtual.

Lendo o texto do professor Osmar fiquei com a impressão de que nos acostumamos a tratar do físico e do psíquico, mas descuidamos do coração (a fé, a espiritualidade). Cita alguns elementos fundamentais para este cuidado: o protagonismo da saúde, superar o medo, encontrar espaço para a família e os amigos, entender o câncer como parte da vida e valorizar as pequenas conquistas.

“Saúde e doença estão entrelaçadas, à semelhança do nascimento e da morte”, diz o professor. E é este “intervalo” que se tem para viver. Sofregamente, consciente de que há um princípio e um fim, mais fácil de ser entendido quando nos damos conta de que é exatamente a doença e a morte que superam a experiência do existir e aproximam do Universo e do Infinito.

Aprender a lidar com o princípio da vida e com o seu fim está para além de um tratamento médico. É a única forma de não desesperar quando não encontramos ou não entendemos o que está acontecendo com o próprio corpo ou de quem cuidamos. Embora o privilégio em viver num tempo em que o tratamento do câncer evoluiu bastante, ainda há muito caminho a ser percorrido...

Osmar teve como escola a maior sala de aula que alguém pode imaginar: o Mundo. Transformou-se num educador por excelência. Filósofo capaz de abrir os olhos e ajudar a desvendar os caminhos do conhecimento. A doença o faz partilhar de uma experiência única: na qual se vivencia que a dor ensina a ver a teoria na prática.
Sem perder o sentido do “cotidiano peregrino”, aprendendo a viver e dar significado à doença, um dos desafios - Lya Luft chama de “pedacinhos dessas dádivas...” - necessários para não perder a fé... Cuidar é um jeito de partilhar a solidariedade - citando o professor Osmar - mas que necessita estar disposto a “saborear a singeleza e a beleza da plenitude do (momento) presente!”.


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