Análise

A nova juventude

A ausência de cenários compõe a trágica equação que ameaça destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de contestação

02 de Fevereiro de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Carlos Alberto Di Franco, diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciência Sociais - IICS e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia. E-mail: difranco@iics.org.br

A Europa continua sob o fogo cerrado de uma crise sem precedentes. Os números do desemprego na Espanha, por exemplo, são assustadores. Dados divulgados recentemente apontam que 26% da população está sem trabalho, totalizando quase seis milhões de pessoas. A Espanha vive uma fuga crescente de jovens talentos. Em um ano, a população entre 20 anos e 24 anos diminuiu em 100 mil pessoas. Entre 25 anos e 29 anos, a queda foi de 150 mil.

A juventude europeia não foi preparada para a adversidade. A frustração apresenta uma pesada fatura: violência, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, Aids e drogas. A ausência de cenários compõe a trágica equação que ameaça destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de contestação.

O quadro brasileiro é bem diferente. Felizmente. Temos inúmeros problemas (violência, drogas, corrupção, desigualdade, baixa qualidade da educação), mas somos um país de gente alegre, com capacidade de sonhar. Expectativa de futuro define a vida das pessoas e o rumo das sociedades. “O Brasil”,  dizia-me um conhecido jornalista espanhol, “tem muitas coisas que não funcionam”. Mas acrescentou: “Vocês têm problemas, mas têm alegria, fé, futuro. Nós, europeus, perdemos a esperança”.

O Brasil de hoje, independentemente das sombras que pairam no quadro financeiro mundial e que, queiramos ou não, toldarão o horizonte da economia real, é um emergente respeitável. O nosso grande capital, o nosso diferencial, apesar do notável emagrecimento do perfil demográfico brasileiro, é o vigor da  juventude. Uma moçada batalhadora, com vontade de acontecer e, ao contrário do que imaginam os pessimistas crônicos, sedenta de valores éticos, familiares e profissionais.

O desinteresse pela política, evidente e medido em inúmeras pesquisas, é, na verdade, uma rejeição ao comportamento imoral de inúmeros políticos. E isso é bom. Trata-se, no fundo, de um sinal afirmativo. Os jovens estão em rota de colisão com a politicagem tradicional. Os políticos não se dão conta, mas o modelo está esgotado. Os partidos, se quiserem ter alguma interlocução com a juventude, vão ter que se reiventar.

A juventude atual, não a desenhada por certa indústria cultural que vive isolada numa bolha ideológica, manifesta uma procura de firmeza moral, de valores familiares e religiosos. Deus, família, fidelidade, trabalho, realidades tidas como anacrônicas nas últimas décadas, são valores claramente em alta. A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), encontro do papa com os jovens, em julho deste ano, no Rio de Janeiro, vai surpreender muita gente. Espera-se mais de dois milhões de jovens de todos os continentes. É muito mais que a Copa do Mundo e as Olimpíadas juntas.

A família, não obstante sua crise evidente, é uma forte aspiração dos jovens. Ao contrário do que se pensa em certos ambientes politicamente corretos, os adolescentes atribuem importância decisiva ao ambiente familiar. Os jovens, em inúmeras pesquisas, apontam a família tradicional como a instituição de maior ascendência em suas decisões.

No campo da afetividade, antes marcado pelo relacionamento descartável, vai se impondo a cultura da fidelidade. O tema da sexualidade, puritanamente evitado pela geração que se formou na caricata moral dos tabus e das proibições, acabou explodindo, sem limites, na síndrome do relacionamento  transitório. Agora, o rio está voltando ao seu leito. O frequente uso de alianças na mão direita, manifestação visível de compromisso afetivo, revela algo mais profundo. Os jovens estão apostando em relações duradouras.

Assiste-se, na universidade e no ambiente de trabalho, ao ocaso das ideologias e ao surgimento de um forte profissionalismo. Ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam “na excelência e no mérito como forma de se fazer  revolução". O pensamento divergente é valorizado. As pessoas querem um discurso diverso, não um local onde se pregue apenas uma corrente de pensamento.
Quem não perceber, na mídia e fora dela, essa virada comportamental perderá conexão com um importante segmento do mercado de consumo editorial.


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