Artigo

A mulher como anjo e demônio

23 de Outubro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Daniela Agendes - jornalista e mestra em Letras
daniela.agendes@gmail.com

Na semana passada, falei sobre as mulheres escritoras terem ficado de fora do conjunto de grandes autores e suas obras-primas (o chamado cânone literário). Argumentei terem sido socioculturais os motivos para a escrita feminina ter sofrido um histórico e longo silenciamento e invisibilidade. Apesar disso, na literatura e também nas artes, as mulheres foram e continuam sendo retratadas em abundância pelo olhar dos homens, sendo tema e objeto de inúmeros produtos culturais.

A figura feminina foi (e é) frequentemente reduzida a estereótipos na literatura canônica. A voz masculina se aproveitou do lugar de prestígio e referência na elaboração da identidade literária brasileira e foi responsável por uma construção distorcida e subalterna da figura feminina, principalmente no século 19.

Mulher-ficcional "anjo" ou "demônio": assim o perfil das mulheres pelo olhar masculino geralmente alternava, segundo as críticas Gilbert e Gubar. A "mulher-demônio" é o caso de Capitu, em Dom Casmurro (Machado de Assis, 1889): "Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada".

Trata-se da mulher sedutora, a "femme fatale", à qual o homem não consegue resistir. Lucíola, de José de Alencar (1862), "era serpente que enlaçava a presa nas suas mil voltas, triturando-lhe o corpo; era vertigem que vos arrebatava a consciência da própria existência, alheava um homem de si (...)". A representação diabólica podia remeter também às figuras da bruxa, da sereia, da louca histérica. Isso quando não era um demônio disfarçado de anjo...

Na faceta angelical, temos os papéis de esposa, mãe e dona de casa reforçados em romances, os quais cumpriam um papel pedagógico ao servirem como veículos para educar o comportamento das mulheres - especialmente as mais abastadas, que tinham acesso à educação e aos livros. Tais obras exerceram dupla função: tanto refletiram os padrões sociais esperados, quanto ajudaram a desenhar a representação feminina na sociedade. Isso contribuiu para manter as condições dominantes do patriarcado, nas quais a mulher não tem voz nem vez.

Helena, de Machado de Assis (1876), atua no espaço que lhe cabia como mulher, como guardiã do lar, envolvida em questões familiares e românticas. Entretanto, sua sensibilidade contrastava com sua racionalidade - atribuição geralmente dada ao masculino, o que foi considerado um aspecto subversivo na escrita do autor.

Não foi sem luta que a literatura brasileira abraçou a escrita feminina. Os movimentos feministas e a revolução cultural dos anos 1960 criaram o clima para que as aparições isoladas de mulheres entre escritores consagrados, nos anos 30 e 40, dessem lugar a uma efervescência de publicações nos anos 70 e 80. Foi quando houve o reconhecimento nacional de Clarice Lispector e Raquel de Queiroz, por exemplo. Elas abriram espaço para Lygia Fagundes Telles, Lya Luft, Adélia Prado e tantas outras, conforme estudos da professora Lúcia Zolin.

A autoria feminina passou por diferentes fases na busca por uma identidade própria na ficção. Primeiramente reproduziu a tradição dos valores dominantes, até passar a narrar os dramas da mulher inserida num mundo masculinizado. Também começou a abordar a complexidade da vida feminina e a trazer personagens que transcendem as regras opressoras do sistema - mesmo que elas acabem muitas vezes derrotadas, impotentes perante a esmagadora cultura patriarcal -, assim como na vida real.


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