Opinião

A melhor da lista

06 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Daniela Agendes
daniela.agendes@gmail.com
Jornalista e mestra em Letras

Ter uma amiga para trocar bilhete escondido por baixo da classe durante a aula era considerado algo muito legal nos anos 90 (pensando hoje, não exatamente legal, se me coloco no lugar da professora… Haja vocação e paciência para ensinar e ainda dar conta de tanta criança arteira). Já ter alguém para trocar papel de carta, figurinha do álbum da Copa e Tazo era coisa de colega, mais trivial.

O máximo mesmo era estar no topo de alguma lista de amizades, escrita numa folha de caderno qualquer _ algo aparentemente banal, mas, para uma criança, com o peso próximo a uma Tábua da Lei de Moisés. O papel passava de mão em mão, de classe em classe, compartilhado para todos verem, como num grupo de WhatsApp das antigas. Aparecer nessas listas estava entre os desejos mais cobiçados, e fazia o status de quem ali figurasse subir, principalmente se a guria dona-da-lista da vez fosse popular. Porém, trazia responsabilidades: amiga desse nível tinha que escrever cartas, e elas precisavam ter declarações e promessas de amizade eterna, tudo emoldurado por corações e flores desenhadas à mão. Manter-se como "a melhor amiga" era um compromisso a ser cumprido com ares de devoção, isso quando não era uma forma de tentar subir um degrau e passar do terceiro para o segundo lugar, planejando um dia alcançar o mais alto posto no ranking da amizade.

Algo bem diferente de trocar memes e figurinhas pelo Whats. De mandar vídeo pelo Instagram porque, com certeza, aquela amiga vai querer saber como preparar a salada de macarrão com pesto de espinafre e cogumelos da chef Rita Lobo, ou a farofa de quiabo, ou então o bolo de fubá cremoso, quem sabe esse se salva. Amiga top talvez seja aquela para fazer dancinha do TikTok, diria a geração Z? Não sei dizer, só tenho uma conhecida nessa faixa etária, e não sou amiga dela no TikTok… Se bem que, é verdade!, eu nem tenho TikTok (no Face, ela me bloqueou faz tempo).

Ensaiamos conexões e afinidades na infância, amadurecemos laços na adolescência, e na faculdade ou no trabalho encontramos amigas e amigos que já estão por perto há mais de década(s), dependendo da idade de quem fala. Quantas de nós já abraçamos uma amiga deixada pelo namorado, outra que perdeu o pai, uma que se sente infeliz com a profissão que escolheu. Quantas queixas escutamos, tantas outras fizemos e, ao final de longos papos sinceros, ficamos com a sensação de alívio de não sermos as únicas a ter incertezas sobre o que estamos fazendo da vida. Quantas vezes já saímos para a noite para dançar e disfarçar as dores juntas, e, no banheiro feminino, secamos as lágrimas, montamos o divã e não chegamos a conclusão nenhuma sobre por que aquele ex foi tão babaca.

Estou atrasada no assunto, se considerar que o dia do amigo foi em 20 de julho. Mas e quando é que não é bom falar de amizade? E quero alertar a quem tem uma amiga num relacionamento tóxico ou abusivo a ajudá-la a não se deixar diminuir, a confiar na sua intuição, a lembrar dos próprios sonhos e a colocar as inseguranças e medos num lugar de acolhimento. A lembrar de como ela é maravilhosa mesmo sem aquele cara ao lado.

Para ajudar uma amiga, escute-a e, se tiver passado por algo parecido, sua experiência será exemplo. Não podemos agir pelas outras pessoas, porém, ser a melhor amiga da lista é saber aceitar que cada um tem seu tempo; é estar presente para compartilhar receios e planos, erros e acertos, com quem quiser, de verdade, ouvi-los.


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