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A Megera de Queluz

17 de Novembro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sérgio Cruz Lima

“Mulher quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miudinhos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda a faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena quase anã, claudicante, uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados”: é assim que Octávio Tarquínio de Sousa, autor de História dos fundadores do Império do Brasil, descreve Carlota Joaquina Tereza Cayetana de Bourbon, esposa de dom João VI e mãe de dom Pedro I, imperador do Brasil.

Aos dez anos, para consolidar a débil amizade ibérica, Carlota, filha dos reis de Espanha, Carlos IV e Maria Luisa de Parma, casa-se com o príncipe dom João, moço baixo, gordo, mãos e pés pequenos, rosto rechonchudo e sanguíneo, olhos redondos e quase inexpressivos. Temperamentos opostos, distantes um do outro, os príncipes hão de viver apartados. Pior: às turras! Despótica, cruel e mal-educada, a irascível espanhola logo exerce decisiva influência sobre a personalidade insegura do marido e dispõe as coisas de modo a criar um partido que lhe permita ensaiar ambiciosos projetos políticos. Fiel às origens de sua terra natal, mantém-se favorável à Espanha e conspira contra o trono lusitano. Bonachão e afável, o príncipe tenta reagir. Contrariada, ela trata-o com rudeza e desdém. Decidida a concretizar suas ambições, apoiada por nobres e membros do clero, Carlota planeja aprisioná-lo. Mais: declará-lo incapaz de gerir os negócios do reino. A conspirata é descoberta. O conde de Vila Verde intenta abrir uma devassa para punir os culpados. Para evitar o escândalo, dom João limita-se a exilar os sediciosos. O casal aparta-se: ela passa a viver no paço de Queluz; ele no palácio real de Mafra.

Em fins de 1807, em razão da assinatura do Tratado de Fontainebleau, que estabelece a partilha de Portugal entre França e Espanha, dom João e dona Carlota desembarcam no Brasil. Ele, a bordo da nau Príncipe Real; ela, do navio Afonso d´Albuquerque. Continuam a viver separados e só aparecem juntos em atos oficiais. Desde a chegada ao Rio de Janeiro, a princesa mostra-se iradamente contrafeita. Não se cansa de amaldiçoar a cidade e não perde ocasião para externar, de público, antipatia e desprezo pelos cariocas. Até nos trajes e gestos demonstra a formação tirânica. Veste-se com suntuosidade e opulência quase escandalosas e exige que todos se ajoelhem em sinal de adoração. Ai daquele que ouse desobedecê-la: lambadas de pau ou pranchadas de espada são o justo castigo! Não é de espantar, pois, o ódio do carioca à real senhora, contrastando com o respeito e afeto devotados a dom João. Mas a Revolução de 1820 exige o retorno dos reis à Europa.

Diversamente de dom João, que ama o Brasil, onde plantara sólidas raízes, dona Carlota odeia viver aqui. Ao embarcar no navio que a levará ao Tejo, manda escovar as solas dos sapatos. “Nem nos sapatos quero como lembrança a terra maldita do Brasil”, desabafa. Em tudo e por tudo ela detesta o Brasil e os brasileiros. Foram treze anos de permanente contrariedade.

Em Lisboa, a inquieta soberana devota-se às traições. Alia-se aos frades, aos nobres absolutistas e aos que se mostram pouco simpáticos à monarquia constitucional. Participa de movimentos políticos como a Conspiração da Rua Formosa, a Vila Francada e a Abrilada. Com a morte de dom João, a regência é presidida por sua filha Isabel Maria. Despojada do poder, a rainha favorece a causa do infante dom Miguel, em cujo espírito inoculara o vírus da discórdia. Aos 55 anos, morre no palácio de Queluz. A História não perdoa e confere-lhe um triste epíteto: a Megera de Queluz.


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