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A mais conhecimento, mais decepção

02 de Dezembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa
prosasousa@gmail.com

Quanto mais me conheces, mais te decepciono. Quanto melhor te conheço, mais me decepcionas. Vai além, ao aprofundar o conhecimento de mim mesmo, mais aumento a decepção a meu respeito. Nosso destino é decepcionar-nos, conosco e com os demais. Somos decepcionantes e decepcionáveis. Dirás que isso se restringe a quem tem expectativas exageradas para consigo, com os demais, com a vida. Direi que esses compõem, de fato, um bando mui humano dos que exigem de si e das gentes coisas que não podem dar, por não disporem nem para o próprio gasto. Mas, acrescentarei, mesmo os não exigentes, ainda assim, beberão desilusões.

Motivos há.

Quer coisa mais humana que acreditar que aquilo que eu digo é o que o outro ouvirá? Desde o berço mamãe assim crê e tal qual me ensina a crer. Minha professora também dá um crédito tal às próprias palavras, o que lhe faz sentir, porque fala alto, que é ouvida.

Muito humana também a preguiça atávica de crer que a comunicação entre as pessoas é coisa clara, tipo 2+2=4, que o que digo é boa semente lançada em terra fértil: palavra proferida é coisa que frutificará. Sempre esquecemos que, de guri, brincamos de telefone sem fio: o que o último ouvia nada tinha a ver com o que dizia o primeiro. Pensávamos - pensamos - que era brincadeira.

Ainda tão humano é imaginar que o que digo é o que efetivamente quero dizer, a difundida crença de que o pensamento que tenho na cabeça se transforma naturalmente na palavra que sai pela minha boca. Existe a crendice de tal ligação linear, automática, azeitada, perfeita entre meu cérebro e minha expressão, verbal ou não. Na mesma linha está o acreditar que o que estou vendo é o que está aí na realidade. Minha amiga olhou, mas não viu o carro que cruzava, e bateu fragorosamente. Por sorte, escapou. Os doutores disseram-lhe que teve uma alucinação negativa, ela diz que aprendeu e ampliou: o que tem chance de dar errado, dará errado.
Dirás que sou um derrotista, um pessimista ou, em teu momento sofisticado, que me submeto a um niilismo. Direi que não. Ao contrário, sou otimista e se trato de ver, especialmente em mim, esse monte de falhas, de imperfeições, de carências, de lacunas é porque quero, gauchamente, alivianar a carga e poder trotar mais leve, com menos tralhas na cabeça, no coração, no bolso. Meu cavalo agradece.

A UCPel bem poderia criar um curso de como administrar a carga pessoal a levar na vida, aprendendo o que é o básico, apenas o indispensável, para colocar na mala de garupa, antes de montar e sair estrada afora. Aprender a bem mexer com o dinheiro, a descobrir como fazer-se amigo, de si e dos outros e da Natureza, aprender a namorar, apreender o silêncio e o ceticismo sustentável, a ouvir estrelas e a cheirar a terra e o mato. A procura será muita, o reitor sabe.

Bibliografia? Machado, Pessoa, Lispector e demais poetas, deste e de outros Pampas. Ah, não posso esquecer meu Baltasar Gracián e minha Adélia Prado.


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