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A maior derrota de Djokovic

29 de Junho de 2020 - 08h28 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado - professor e jornalista

Na última semana, o tenista Novak Djokovic, o 1º colocado no ranking mundial da categoria e uma das maiores estrelas do tênis em toda a história, foi diagnosticado com Covid-19. Pela notoriedade de Djokovic, o fato em si já seria motivo para notícias mundo afora.

Mas o diagnóstico positivo do tenista sérvio ganhou as manchetes por outro motivo: nos dois finais de semana anteriores, ele foi o principal responsável pela organização de um torneio de tênis no Leste Europeu, o Adria Tour. A primeira etapa ocorreu em Belgrado, a capital da Sérvia, e com a presença de algumas das principais estrelas da atualidade, como o próprio Djokovic, além de Dominic Thiem e Alexander Zverev.

A segunda etapa aconteceu em Zadar, uma praia paradisíaca na costa da Croácia, e também contou com alguns dos principais tenistas do ranking mundial. Antes do torneio, em diversas entrevistas, Djokovic afirmou que a pandemia estava sob controle na região, que as autoridades dos países estavam de acordo com a realização e que todas as precauções seriam tomadas. O problema é que o torneio foi realizado como se ainda vivêssemos em um mundo pré-pandemia, mas em plena pandemia.

As arquibancadas em Belgrado e Zadar exibiam milhares de pessoas sem qualquer distanciamento.

Pouquíssimas pessoas usavam máscaras. Mais: os jogadores se abraçavam antes e depois dos jogos, e postavam em suas redes sociais fotos em jogos de basquete promocionais e festas após as partidas.

Pois o universo paralelo criado por Djokovic não é a primeira das controvérsias em que o genial tenista se envolveu. Semanas antes, em evento pela Internet, Djokovic havia dito que seria contra se a Associação dos Tenistas Profissionais, a ATP, obrigasse todos os tenistas a se vacinarem contra a Covid-19 como condição para competirem.

Por tudo isso, o diagnóstico positivo de Djokovic e de outros três jogadores, além de membros de comissões técnicas e familiares, é catastrófico para o mundo do tênis. Também é terrível para as imagens internacionais da Sérvia e da Croácia, os países que concordaram em sediar um evento que simplesmente ignorou a existência de uma pandemia ainda com focos em boa parte do mundo. Mas o principal afetado pela catástrofe do Adria Tour é o próprio Djokovic.

Nos últimos 15 anos, o sérvio tem travado uma batalha intensa com o suíço Roger Federer e com o espanhol Rafael Nadal pela supremacia do tênis mundial.Os quatro maiores e mais prestigiosos torneios do tênis são chamados de Grand Slams. Em um ano normal, em janeiro, é jogado o Aberto da Austrália, em Melbourne. Em maio e junho, nas quadras de Paris, é disputado o torneio de Roland Garros.

Do final de junho à metade de julho, nas quadras de Londres, 128 tenistas se enfrentam pelo título de Wimbledon. Por fim, da última semana de agosto até o início de setembro, o palco muda para Nova York, onde é disputado o US Open. Até o início da década de 2000, o maior vencedor de Grand Slams da história era o estadunidense Pete Sampras, que venceu 14 vezes.

Federer, Nadal e Djokovic venceram 20, 19 e 17 Grand Slams, respectivamente. Há quem argumente que os três são, justamente, os três maiores tenistas da história do esporte. Djokovic, que é mais jovem que Federer e Nadal, sempre foi considerado como o bad boy do trio. O episódio do Adria Tour, no entanto, será sempre uma mancha em seu currículo. Em tempos de pandemia, Djokovic julgou viver em um universo paralelo. Da pior forma possível, descobriu que vivemos uma emergência global, e que combatemos um vírus ainda sem contar com uma vacina ou medicamentos comprovadamente eficientes.

Nossas únicas armas, em meio a tanta desinformação, são a paciência e o bom senso, atributos que faltaram ao genial tenista sérvio.


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