Ponto de vista

A lógica do vício

A lógica do vício somente consegue ser superada a partir do momento em que o viciado consegue perceber que tem um problema

24 de Abril de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marcelo Harger, advogado

Recentemente, ouvi uma história horrível. Um advogado renomado no Nordeste do país recebeu um ultimato de seu médico: deveria parar de fumar e ingerir bebidas alcoólicas porque complicações vasculares poderiam fazer com que tivesse as pernas amputadas.

O paciente que recebeu a terrível notícia é pessoa extremamente inteligente e esclarecida. Faço essa observação porque a conduta que se espera de alguém com essas características, ao receber notícia tão drástica, é parar imediatamente de fumar e beber.

Não foi isso o que fez o cidadão em questão. Passou a calcular o tempo que utilizava as pernas e fez uma conta estarrecedora. Passava oito horas dormindo, nove horas sentado trabalhando no escritório, uma hora sentado almoçando, uma hora sentado jantando, duas horas assistindo televisão sentado, uma hora no trajeto ida e volta para o escritório também sentado no carro.

Observou também que as duas horas restantes eram gastas alternadamente entre momentos sentado e em pé. Chegou à conclusão de que preferia continuar a beber e fumar porque poderia prescindir dos poucos minutos diários nos quais utilizava as pernas. Criou uma desculpa lógica para justificar o fato de que brevemente teria as pernas amputadas e passaria o restante da vida em cadeira de rodas.

O interessante é que jamais reconheceu que o vício era mais forte que ele. Sempre afirmou que era uma escolha consciente e que poderia largar o fumo e o álcool no momento em que quisesse. Não o fazia porque preferia o prazer que eles lhe proporcionavam à parte não importante de seu corpo representada pelas pernas.

Vício é algo terrível para todos, mas é pior quando ocorre nas pessoas inteligentes. Racionalizam a própria dependência para justificar algo que é bizarro diante dos outros. É a lógica do vício, que somente consegue ser superada a partir do momento em que o viciado consegue perceber que tem um problema.

Antes dessa percepção qualquer esforço dos familiares e amigos é vão. Resta apenas rezar para que adquiram a consciência antes de perderem as próprias pernas.

 


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