Editorial

A legitimação do desrespeito

22 de Junho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por todo o Brasil, são comuns relatos de reações desconcertadas e agressivas a pedidos para o uso de máscaras protetoras em locais fechados ou coletivos. Quem conhece profissionais que atendem em comércios ou serviços possivelmente já tenha ouvido histórias de precisarem lidar com a insatisfação de clientes ao serem solicitados para que cumpram aquilo que é, neste momento, uma exigência de leis e decretos com o objetivo único de minimizar os riscos de contágio por um vírus responsável pela morte de meio milhão de brasileiros.

No domingo à noite, o programa Fantástico, da TV Globo, mostrou alguns casos dessa hostilidade. Cidadãos que, sentindo-se afrontados em seus "direitos individuais", atacaram violentamente trabalhadores que pediram o uso da máscara. Não por uma preferência pessoal, não por implicância. Por determinação legal e, sobretudo, preservação à vida. Deles, funcionários, e dos próprios clientes. Uma balconista foi espancada por um homem. Um vendedor teve uma arma apontada ao peito. Total absurdo.

Pois poucas horas depois, no dia seguinte, explica-se como a sociedade brasileira chega a tal estágio de brutalidade, belicosidade. Bestialidade, em resumo. O presidente da República, questionado pela imprensa - este é o papel dela, lembremos - partiu para mais uma série de ofensas a jornalistas e veículos de comunicação. E defendeu, claro, seu "direito" de circular por onde quiser, quando quiser, sem máscara. E mais: retirou-a frente à repórter e seguiu esbravejando. Contrariando o protocolo e, em última análise, colocando-a em risco de eventual contágio. Para completar, ainda repetiu apoio a supostos tratamentos precoces.

Ações como essa de Jair Bolsonaro justificam argumentos que o apontam como um dos principais responsáveis - se não o principal - pela tragédia sanitária vivida pelo Brasil. Além da significativa gravidade de subestimar a doença e minimizar a essencialidade das vacinas, a carga contra medidas preventivas fundamentais como o distanciamento social e o uso de protetores faciais torna aceitável reações em sentido semelhante. Sob a ótica de parcela da sociedade desinformada ou suscetível à sua influência, o presidente teria, sim, razão ao agir desta forma.

É profundamente lamentável que tanta autoridade seja usada para subverter a razão e o respeito ao próximo. Vivemos tempos de legitimação - oficial - do absurdo e do desrespeito à coletividade.


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