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A importância de Celso Furtado

30 de Julho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por João Neutzling Jr. - Economista, professor e auditor estadual

Poucos economistas e pesquisadores brasileiros tiveram uma visão tão orgânica e visionária do Brasil quanto Celso Furtado. Nascido em Pombal, na Paraíba, em 26/07/1920, logo se dedicou a estudar o processo de desenvolvimento econômico da América Latina e sua dependência em relação às metrópoles do sistema capitalista global.

Em uma de suas obras mais famosas, Formação econômica do Brasil, de 1959, Furtado estabeleceu pela primeira vez sua ideia fundamental de que o subdesenvolvimento econômico não é uma etapa histórica transitória do capitalismo, mas sim uma consequência do desenvolvimento dos países do hemisfério norte. Ideia totalmente contrária à visão dominante de Walt W. Rostow, que falava sobre as etapas do desenvolvimento econômico. Ainda nesta obra, ele abriu os olhos de muitos estudiosos ao comprovar que os ciclos econômicos do país (ouro, borracha, cana-de-açúcar, café, etc.) e nossa formatação de malha viária não operavam em prol do nosso desenvolvimento, mas sim para atender às demandas de matéria primas dos países industrializados, que não desejavam nossa industrialização.

Foi cassado pelo governo militar depois do golpe de Estado de 1964 e logo recebeu convites para ser professor nas universidades de Yale nos EUA, Cambridge na Inglaterra e Sorbonne em Paris (entre outras)! Desprezado e perseguido no Brasil, foi disputado pelas grandes universidades do mundo.

Na obra O mito do desenvolvimento econômico, de 1974, Furtado alertava sobre a incapacidade física do planeta de suportar a generalização do nível de consumo dos EUA e Europa. O nível de poluição seria insuportável e a destruição do meio ambiente e dos recursos naturais uma consequência imediata. Sua ideia se alinhava ao cenário sombrio teorizado pelo economista Thomas Malthus (1766-1834), que alertava sobre escassez de recursos naturais face ao aumento da necessidade de consumo de uma população crescente. Este é o grande dilema das sociedades atuais: escassez de recursos x necessidades ilimitadas.

Beneficiado pela anistia política de 1979, retornou ao Brasil junto com Miguel Arraes, Fernando Gabeira, Leonel Brizola entre outros.

Em 1981 publicou O Brasil pós-"milagre", onde apontou as contradições e falhas do período militar onde:

a) dívida externa saltou de 3,3 bilhões de dólares em 1964 para 80 bilhões de dólares em 1981, num aumento de 2.300%! Ou seja, foi o chamado crescimento com endividamento o que colocou o país sempre na dependência do mercado financeiro internacional e do FMI;

b) aumento na concentração de renda decorrente de políticas de contenção de reajuste salarial e consequente escassez de demanda efetiva para fortalecer o mercado interno.

Celso Furtado influenciou toda uma geração de economistas, entre eles eu, com sua preocupação social e sua visão dialética do processo de desenvolvimento econômico.

Furtado nos deixou em 2004 e ainda hoje sua profícua obra (mais de trinta livros) serve como referência e paradigma para muitos estudiosos da economia brasileira.

Neste momento atual de incerteza e crise, reler Celso Furtado serve como inspiração para todos nós.


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