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A hora de contar as feridas

27 de Outubro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Manoel Jesus, educador - manoeljss21@gmail.com

A senhora e a filhinha saem às 7 horas em direção à creche e ao trabalho usando máscaras; o senhor que recolhe material reciclável, pouco depois do almoço, usa máscara; o rapaz que chega para o futebol, na cancha, usa máscara... Já não são a regra, mas a exceção. Infelizmente, a flexibilização das normas de convívio - ao invés de esperar a vacinação da "manada" para que se aliviassem os procedimentos - se deve ao fator político que escancarou a porteira e deixa passar, inclusive, o coronavírus.

Não há dúvida de que o processo eleitoral esqueceu os ditames de "seguir a ciência" para o de "seguir a conveniência", mantendo o discurso e, na prática, aceitando pressões, inclusive dos sem noção que se apegam aos sofismas de defesa dos seus direitos, esquecendo que, em sociedade, em muitos momentos, é preciso priorizar o coletivo. Para isto, seria preciso a capacidade de bater pé, quando necessário, dos quadros administrativos, sem surfar na onda de interesses próprios e de quem os apoia.

O olhar se volta para a Europa onde acontece a segunda onda, mais forte e letal. Mesmo que os números sejam inferiores aos Estados Unidos e Brasil, onde interesses eleitorais - não apenas desta campanha para a qual grande parte da população sequer está prestando atenção - miram o pleito presidencial. Lá, se encontram na entrada do inverno, fator decisivo para que o vírus modificado preocupe. O que, se espera, não aconteça por aqui, já que, antes desta estação, se terá algum tipo de vacina.

Embora se veja como uma boa notícia a imunização de parte da população, não se conseguirá cobertura completa, o que significa que o vírus continuará circulando. Já se pensa em estabelecer grupos prioritários - como os da saúde e de risco - para iniciarem a fila. Então, mesmo com a diminuição dos casos, é necessário consciência de que, ainda em 2021, continue-se usando máscaras e que a assepsia faça parte do novo normal. Infelizmente, o que não se aprendeu com civilidade, vai se aprender na marra...

No pós-pandemia, idosos e pessoas em situação de risco precisarão de mais cuidados, o que também redobra a atenção por parte de responsáveis e de quem, de alguma forma, interage com eles. Por exemplo, reuniões e celebrações de grupos religiosos. Nos últimos meses, multiplicaram-se lives de diversos credos, mas também da área cultural e entretenimento. Os riscos continuam e a atenção também: não se pode abrir mão deste que já se tornou um complemento da vida normal...

É hora de contar feridas. As "planilhas" dificilmente fecharão: crianças que perderem convívio social e aprendizado presencial; adultos que viram esvoaçar emprego e tiveram vencimentos reduzidos; idosos que perderam a referência de familiares e amigos... A força pode estar no que Robert Schiller pontuou: "deixe as suas esperanças, e não as suas dores, moldarem o seu futuro". Amém, que assim seja!


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