Editorial

A grandeza pelo conhecimento

06 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Morreu na madrugada da sexta-feira, em São Paulo, o ator, diretor, roteirista, escritor, humorista e apresentador Jô Soares. Por ter dedicado 60 dos seus 84 anos de vida à carreira artística, dificilmente algum brasileiro vivo hoje não conhece seu trabalho e não tem boas memórias e influências transmitidas em palcos, TVs, livros, jornais.

A perda de um personagem do tamanho de Jô Soares mistura a tristeza daqueles que o admiram e sentem a dor ao sopro de esperança pelo reconhecimento demonstrado desde a notícia do falecimento e que certamente se estenderá por dias. Ao mesmo tempo em que há lamentação, existe entre colegas, admiradores e até quem acompanhou apenas parte dessa trajetória o sentimento de que o país deixa de contar com a possibilidade de novas obras relevantes por ele produzidas. Ainda que o legado seja preservado, saber que esgotou-se a fonte está no fundo de muitas das declarações e homenagens feitas a Jô.

A esperança, nesse caso, reside em ver que grande parte da sociedade resiste em celebrar, ainda que neste momento da morte de um grande personagem, o valor da cultura, da inteligência. E da capacidade de não fazer disso algo inalcançável, mas sim um estímulo para quem assiste, lê e ouve também buscar construir a sua bagagem, ampliar os limites do conhecimento pessoal.

Naturalmente, Jô Soares não foi unanimidade. Pelo menos não o tempo todo. Graças ao espírito crítico que sempre norteou suas obras, personagens e manifestações, colecionou críticas de poderosos e seus defensores, que não admitiam o uso de tamanho poder de comunicação e disseminação das mensagens para apontar preconceitos, desvios de caráter, corrupção, violências e tantas outras chagas do Brasil. Tudo isso circulando do humor ao comentário ácido. Desagradou da extrema direita à extrema esquerda. E, por sua honestidade e independência, também teve o respeito de todo esse espectro. Tanto que, mesmo quando atacado, jamais foi taxado de oportunista.

A repercussão da morte de Jô mostra que ainda há um Brasil que valoriza a notoriedade e torna célebres aqueles que nutrem e espalham a intelectualidade, o saber, a criatividade e o entendimento. O que, em tempos de truculência e culto à ignorância nas mais diferentes esferas e das mais esdrúxulas formas, precisa ser exaltado.

Cada artista que morre deixa um buraco. Mas também ressalta o quanto são essenciais estas pessoas e o valor que possuem a cultura, o humor, a crítica, a informação. Que o Brasil aprenda isso de uma vez por todas e colha ao menos parte daquilo que Jô Soares e tantos outros plantaram e continuam plantando.


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