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A força da literatura - Café Literário

22 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor

Em 2014 estive em Woody Creek, um povoado próximo à cidade de Aspen, no Colorado, Estados Unidos, para entrevistar a viúva do escritor norte-americano Hunter S. Thompson, o Dr. Gonzo, autor de Medo e Delírio em Las Vegas, entre outros. Hunter Thompson fez o que mais nenhum jornalista conseguiu fazer no mundo ocidental até hoje: escreveu o que quis, xingando patrocinadores, políticos, contando sobre porres homéricos e defendendo o uso de drogas nas páginas dos maiores jornais e revistas norte-americanos da era pré-internet, como The New York Times, Washington Post, Chicago Tribune, Rolling Stone e Playboy. Ele não deu descanso para Nixon desde o seu primeiro mandato até o impeachment, infernizou Bush pai e filho e questionou tudo o que foi estruturado e enraizado na cultura americana pelos conservadores americanos ao longo dos anos.

No entanto, a chave da sua literatura foi desvendada pela viúva do escritor, Anita Thompson, nas montanhas do Colorado diante desse que vos escreve: "Quando você lê a obra de Thompson, você se sente poderoso. Você se sente forte, capaz, acredita que tudo é possível. Não é à toa que seus livros são proibidos nas prisões americanas até hoje", disse. E é exatamente por isso que, ao entrar em contato com os textos de Thompson, decidi escrever minha tese de doutorado sobre ele e o seu imponente e inigualável jornalismo gonzo, que me levou até as montanhas do Colorado alguns anos depois da sua morte, em 2005. Sobre essa jornada, publiquei em 2018 o livro Jornalismo Gonzo - Mentiras sinceras e outras verdades pela editora Insular, de Florianópolis.

A fala de Anita me fez perceber que a maioria dos livros que li e gostei teve esse encanto: passaram-me uma sensação de força e poder (e penso que por isso os políticos autoritários odeiam tanto os livros - eles querem o poder só para eles e um gado submisso). Não é um poder político, mas um poder pessoal, intelectual, espiritual. O niilismo de Bukowski passa essa sensação de que tudo é possível e de que, ao mesmo tempo, (quase) nada importa. A revolta de Pedro Juan Gutierrez diante da ditadura cubana, mesmo sendo um antiamericano, também. Bem como as palavras agressivas contra o sistema de As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Nessa obra, ele apresenta todos os caminhos que levaram o Brasil e os demais países latino-americanos à situação em que se encontram hoje: pobres, subdesenvolvidos, submissos, sem moral e sem perspectiva de futuro. Entra direita, entra esquerda e o esterco continua o mesmo há mais de 500 anos. Muda um pouco aqui, outro tanto ali, mas as Carolinas de Jesus continuam vivendo os seus dramas pelos bairros pobres e favelas afora, seja nas praias tropicais nordestinas ou nos Andes chilenos e argentinos. Eu, pela janela do apartamento onde moro, vejo a cada meia hora um catador revirar o contêiner de lixo que fica do lado de lá do vidro. E qual de vocês, leitores, se importam com isso? No Brasil, é normal. É banal. Sempre foi. E viva Jesus Cristo, que partiu o pão - mas a humanidade não! Rá!

O fato é que a literatura tem poder. A boa literatura conquista corações e mentes. A literatura com "L" maiúsculo incomoda os donos do poder, pois eles, na sua maioria, nunca leram e não entendem o que se passa naquelas páginas cheias de histórias e ideias. Eles foram treinados por gerações, amigos e colegas de política a serem líderes. E as palavras e os livros representam, de alguma forma meio enigmática, uma ameaça aos seus superpoderes. É mais ou menos como o namorado inseguro e ciumento que não quer que a namorada saia de casa porque os outros podem conhecer algo sobrenatural que vai roubá-la de seu corpo musculoso e de seu cérebro pequeno. É por isso que não me canso de repetir: presidentes, deputados, vereadores, prefeitos... enfim, políticos que não têm leitura estão condenados à insegurança e à tentação de serem ogros autoritários, pois eles sempre vão pensar que o cérebro do próximo é maior (ou melhor) que o seu. E, por isso, por mais que se tornem reis do mundo com superpoderes, sempre serão uns pobres infelizes e inseguros.

Por isso celebro tanto as letras. Viva a Literatura! Viva a força que ela transmite a cada leitor desse imenso planeta! E isso, quem não é leitor, nunca vai entender.


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