Artigo

A fita amarela

20 de Setembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Caroline de Melo, acadêmica de Medicina da Famed - UFPel

Consideremos para início de conversa a grande propagação do assunto. Em muitos dos lugares para os quais olhamos nos dias correntes, certamente não é uma ou duas vezes que ouvimos falar da campanha Setembro Amarelo. E cá estou, refletindo com meus botões sobre tudo que tenho observado. Estrategicamente preferi não deixar para o começo do mês para tratar do assunto, pois é interessante observar como a campanha acaba sendo propagada e ocorrendo sobretudo nas mídias sociais. Esse tempo foi necessário para muitas conclusões.

O Setembro Amarelo teve suas raízes ainda nos anos 90 e seu ícone tem nome: Mike Emme. O garoto estadunidense nutria verdadeira paixão pelo seu Ford Mustang amarelo. Descrito pelos pais como uma pessoa bem humorada, infelizmente teve seu destino selado no interior de seu tão amado carro, quando tirou a própria vida com tiros poucos minutos antes do retorno dos pais a casa. Daí, de forma ainda embrionária, uma campanha de prevenção ao suicídio começou a tomar forma, atingindo a proporção mundial em 2015.

Em se tratando de depressão, há pouco tempo redigi a crônica A voz do silêncio, que descreve cada detalhe dessa sorrateira patologia que tem se tornado o verdadeiro mal do século. Assim, o mérito desse texto não é tratar da mesma.

Algo que chama a atenção, tanto na convivência com outras pessoas quanto (sobretudo) nas redes sociais, é o engajamento com a prevenção ao suicídio. A cada rolagem realizada no feed de notícias do Facebook, por exemplo, logo surgem imagens da icônica fita amarela, bem como listas de sinais de alerta para a prevenção de atos que tirem a própria vida. O porém é: será que muitas das pessoas que enchem a boca e movem os dedos a toda velocidade tratando do assunto estão colocando em prática seus discursos?

Diversas situações provam o contrário. Você já percebeu a quantidade absurda de notícias de suicídios que ronda nosso cotidiano? O que poderia ter sido feito de fato para prevenir isso? Será que as pessoas que se dizem ativistas da causa amarela estão colocando de fato em prática o que tanto propagam ou estão apenas recheando seus feeds para entrar no que julgam ser uma onda?

Estando na área da saúde, há coisas que, sinceramente, me fazem lamentar de forma profunda. Acadêmicos da área sofrem com situações-gatilho e acabam procurando libertação. Muitos profissionais da enfermagem por vezes exaustos de seu trabalho que em diversas vezes não recebem seu devido valor têm encontrado na morte uma tentativa de alívio. Isso fora outros âmbitos acadêmicos, profissionais e pessoais que são permeados pela ideia de que se pode adiantar a finitude como uma forma de libertação das dificuldades terrenas.

E nós, o que estamos fazendo?

Será que estamos conseguindo enxergar as possibilidades e agir, ou estamos nos tornando meros ativistas de Facebook que, quando o amigo precisa, acabam por se ausentar por "não gostar de bad vibes"?

Mais do que propagar palavras bonitas, imagens motivadoras e fluxogramas, é necessário refletir sobre nosso papel no mundo e em como podemos de alguma forma modificar tais situações, sendo inspiração e apoio para quem necessita. Se for preciso auxiliar na busca de ajuda, auxiliemos. Se for preciso tomar o telefone das mãos do amigo para ligar para o CVV, liguemos. Busquemos compreender a situação além de simplesmente divulgar informações e em nada praticá-las. Esse é o verdadeiro espírito. Isso é o Setembro Amarelo real.


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