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A finada Jornada Nacional de Literatura - Café literário

15 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, coordena o projeto de extensão Café Literário - rittergaucho@gmail.com

No final de 2019, a Universidade de Passo Fundo publicou uma nota em seu site informando o cancelamento da 17ª edição da Jornada Nacional de Literatura que aconteceria em março deste ano. A nota diz que “a Instituição empenhou seus mais dedicados esforços no sentido de viabilizar a realização de mais uma edição das Jornadas e das Jornadinhas Nacionais de Literatura, no entanto, embora tenha contado com a presteza e a sensibilidade dos governos municipal, estadual e federal, as captações de recursos financeiros, via lei de incentivo e patrocínios, não foram favoráveis à realização dessa importante manifestação cultural”.

Eu tive a sorte e o privilégio de participar da Jornada de Literatura de Passo Fundo em 2005. Lembro que as inscrições on-line, naquele ano, esgotaram-se em questão de minutos. Durante o evento, recordo ter visto de perto - em meio a uma multidão - as falas de monstros da literatura brasileira, como Ignácio de Loyola Brandão, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Carlos Heitor Cony, além dos músicos e escritores Chico Buarque, Lobão, dentre outros. Recordo-me até hoje de algumas das falas daqueles caras.

Ignácio Loyola Brandão, por exemplo, contou sobre uma visita que fez ao Norte do país onde ele conseguiu levar para a escola os pais de crianças pobres, que não participavam da vida escolar dos filhos. “Eu simplesmente trouxe os pais para dentro da escola, pois eles não eram ouvidos e não queriam saber o que acontecia lá dentro. Trabalhei histórias e textos que diziam respeito à realidade deles”, contou. Ariano Suassuna, por sua vez, deu um show de humor, contando anedotas da Academia Brasileira de Letras e revelando que morria de medo de avião: “Não tem nada embaixo!”, disse. Lobão chocou o público revelando que seu primeiro orgasmo foi em cima de um crucifixo (ele conta essa história em suas memórias, “50 anos a mil”). E João Ubaldo Ribeiro, sempre de fala mansa, relatava sobre as dificuldades que encontrou para levar uma vida sóbria sem perder a inspiração literária que, até então, ele achava que vinha do álcool. São histórias que foram partilhadas com milhares de professores, pesquisadores, acadêmicos, escritores, enfim, por uma legião de apaixonados pela Literatura. Acredito que, assim como eu, muitos dos participantes gravaram aquelas falas na memória por todos esses anos. Agora acabou.

E acabou graças à população. Basta ver os comentários nas notícias sobre o tema: o povo não quer dinheiro para cultura. O povo não quer que escritor, artista, músico e até jornalista ganhe qualquer tipo de dinheiro (mesmo que seja o mínimo) por seu trabalho. O povo não quer financiar a “farra” da cultura. E, ouvindo os anseios da população, políticos e empresários cortaram as verbas. Cortaram a verba para investir em segurança e saúde? Sonham que a Pepsi paga (e a prazo). Simples assim. Lei do mercado. Aceita que dói menos.

É com cinismo que ouço, inúmeras vezes, pessoas com esse pensamento compartilhado pela “maioria” vindo me cumprimentar pelo meu trabalho em defesa da literatura. Também é com cinismo que ouço muitas vezes pais hipócritas defendendo a importância da leitura ao mesmo tempo em que combatem digitalmente nas redes sociais contra a literatura e a cultura. Ou, quando dizem o chavão: “O Brasil não tem cultura. É só funk e bunda”. E o que tu espera, cara pálida? Um Shakespeare do século 21 na terra da guerra contra a educação e a cultura? Ou você sonha que vai aparecer por aqui um novo Hemingway ou um gênio da tecnologia como Mark Zuckerberg sem haver um investimento do país nessas áreas? Vai nada. E se aparecer vai ser por mérito pessoal ou acidental, como quase sempre aconteceu ao longo dos mais de 500 anos de história desse sofrível país.

A Jornada Nacional da Literatura morreu. Foi assassinada. É a derrota dos escritores para os maus políticos? Nem pensar. A literatura e a arte são muito maiores do que egocêntricos insignificantes para a história nacional e universal. Enquanto houver palavras, haverá ideias. E enquanto houver ideias, a literatura resistirá. Com ou sem Jornada. Com ou sem apoio da população.


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