Artigo

A filha do próximo

18 de Janeiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter

Desde os meus tempos de colégio, na longínqua década de 1990, até o meu estágio doutoral na New York University, cinco anos atrás, que venho participando de discussões sobre a pena de morte. Sempre que se propõe um debate sobre esse tema ou ocorre um crime horrendo, alguém sugere: "Pena de morte!". Aliás, essa é uma discussão eterna. Nunca vai acabar. Se algum dia a pena de morte for implantada no Brasil, a discussão vai se tornar ainda mais efervescente. Esse é um assunto que daqui até o fim dos tempos, nunca será unanimidade entre os seres humanos.

Teoricamente sempre fui contra a pena de morte. Acho que há outras formas de penalizar criminosos. Castração e prisão perpétua são boas penas para estupradores e outros criminosos mais sanguinários. A solitária com um copo de azeite e um pires de arroz para o autor de uma chacina até o fim dos seus dias, também é uma pena aceitável. Entretanto, para abordar essa questão, que me ocorreu relendo a obra de Hunter Thompson (que é um autor que mencionarei frequentemente aqui e no programa Café Literário), vou citar o meu conterrâneo santo-angelense, o jornalista e escritor consagrado no Rio de Janeiro pela imprensa carioca, Fausto Wolff. Certa vez, ao falar para um amigo que era contra a pena de morte, o cara retrucou: "Mas e se pegassem tua mãe ou tuas filhas". Wolff, sem pensar duas vezes, respondeu: "Eu mato o filho da puta". Para mim, é impossível não concordar. Não tem como você não querer matar alguém que faz muito mal a quem você ama.

Nesse sentido, relendo mais uma vez o livro Reino do medo de Hunter Thompson (1937-2005) nessas férias, encontrei uma boa orientação para o caso de você que, como eu, tem uma filha, querer matar um fiá-da-pu que quiser se meter a besta com sua família em tempos de feminicídio (sim, sujeito que pensa que pode fazer o que quiser com a companheira: elas têm pais, irmãos e famílias para defendê-las, já que as defesas oferecidas pelo Estado são tão ineficientes). Thompson conta no texto que não tem filha (mas sim um filho), mas que jamais aceitaria, se tivesse uma filha, um namorado como o tal de Manson, um traste com quem ele tinha desavenças. Vejam vocês que ótima ideia:

"Em primeiro lugar, livre-se da Testemunha. Mande-a lá pra cima para o quarto dela e verifique se não há mais ninguém por perto". Abro um parêntese aqui para explicar que a Testemunha é a sua própria filha. Segue ele: "Essa é uma Regra básica nesse ramo... O próximo passo é pegar uma espingarda carregada e atraí-lo para a cozinha com pisadas violentas no chão & gritos enlouquecidos, ao mesmo tempo em que disca 911. Isso fará com que sua situação seja Registrada. Continue gritando: 'Saia de perto de mim, Charley! Não dê mais nem um passo!', até que ele entre correndo no recinto com olhos transtornados e você possa acertá-lo bem no meio do peito com os dois canos... Não erre, senão as coisas não demorarão a ficar esquisitas. Certifique-se de que ele está mortinho da silva quando cair, porque você não terá uma segunda chance. Ele virá para cima de você com uma faca de açougueiro... Mas se você fizer tudo Certo, será saudado como Herói, e sua filha pensará longa e profundamente antes de chegar em casa com outro canalha como Manson". Viram? Simplesmente genial. Oferecer ao criminoso o próprio veneno, ainda mais em um país onde a maioria dos autores de feminicídio também são a favor do armamento da população e tem fotos fazendo arminha no Facebook...

Ao ler assim, de forma descontextualizada, você pode até achar que Thompson estava blefando. Entretanto, no capítulo seguinte do livro com textos biográficos sobre o escritor e jornalista, há o depoimento de uma testemunha que viu Thompson trocar tiros com o seu vizinho, até que o próximo deixasse a residência, sendo perseguido pelo jornalista mais maluco da história. Aliás, em toda a sua obra, Thompson acaba com a imagem do jornalista bem-comportado. "Eu era o famigerado autor mais vendido de livros estranhos e brutais e um colunista de jornal amplamente temido. Eu também era bêbado, louco e vivia armado até os dentes". Em tempos de armamento civil, é melhor pensar antes de mexer com a filha do próximo. E não caia na lorota de que os homens das letras são inofensivos. Quem leu Hunter Thompson, sabe disso.

Um bom final de semana para todos.


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