Artigo

A exclusiva Mary de Teck

23 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, colaborador

Descoberta a América, os reis de Espanha saquearam-na em busca de ouro. Mary de Teck, rainha consorte da Inglaterra, "saqueava" palácios. No primeiro tempo do século 20, a esposa de Jorge V e mãe do futuro rei Jorge VI, pai da rainha Elizabeth II, era uma ávida e expert colecionadora. Apreciadora de pequenos objetos de arte e imagens de valor relacionados à realeza, ela preferia não pagar por eles. Inteligente, educada e afável, sempre muito empertigada e dona de si, Mary de Teck exibia maneiras peculiares de adquirir o desejado. E nenhum palácio por ela visitado estava a salvo de sua ferocidade aquisitiva.

"Eu o estou acariciando com os olhos", balbuciava, altiva e presumida, ao avistar algo desejado. E inclinava-se maneirosamente em direção ao objeto, na intenção natural de gerar um certo efeito majestático e ao mesmo tempo teatral. Em geral, esse singelo artifício bastava para que o proprietário, em sua reverência pela realeza, prontamente insistisse para que sua majestade ficasse com o item em questão. E, generosamente, o doava. Sem rapapés, sua majestade agradecia. Todavia, para os que não entendiam a mensagem real, a soberana ia ainda mais longe. Pouco antes de retirar-se, a rainha fazia uma pausa dramática à porta e dizia: "Posso voltar para me despedir daquele magnífico objeto que me chamou a atenção?" Com a dica mais sutil, a predatória avó da rainha Elizabeth II costumava conquistar seu prêmio. Ainda assim, havia ocasiões em que a única opção restante era pagar de verdade. Caso sua majestade deixasse a mansão senhorial de mãos vazias, seu cartão de agradecimento com frequência compreendia um pedido para comprar a peça ou peças cobiçadas. Poucos eram capazes de resistir ao assalto final. Mas Mary de Teck era capaz de pagar preços absurdos por algo desejado. Sabe-se que chegou a pagar valores acima das estimativas de mercado pelas joias de Maria Feodorovna, tzarina viúva da Rússia. Mais: pagou quase três vezes o valor de mercado ao comprar as esmeraldas da família Cambridge.

À medida que a coleção da rainha crescia, aqueles que a recebiam com frequência começaram a tomar precauções sempre que ela aparecia para uma visita. Tudo aquilo que imaginavam ser do interesse pessoal de Mary de Teck era devidamente guardado até a passagem do furacão real. Não obstante, nem todos caíam nos encantos da monarca. Quando estava colecionando peças em miniatura para a sua Casa de Bonecas, construída pelo arquiteto sir Edwin Lutyens, sua majestade persuadiu vários escritores famosos da época a doar volumes minúsculos de seus livros. Conta-se que George Bernard Shaw, um vegetariano convicto, abstêmio, gago, socialista, de humor ácido e com pouca confiança em si mesmo, que costumava ser visto por seus contemporâneos como metido a santo e cheio de bazófia não atendera ao pedido real e, segundo contava a princesa Maria, filha da rainha, "de modo bastante rude". Basilarmente, Shaw lhe dissera que enfiasse o livrinho em certo lugar. Cáspite!


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